Uns vão, outros vêm…

Fotografia do pai com a filha via Renascença

Fotografia via Renascença

O Observatório de Emigração diz-nos que cerca de 30 por cento dos jovens portugueses estão emigrados, serão à volta de 850 mil. Mas também há muitos que regressam. O Observatório da Emigração estima que têm saído em média 60 mil portugueses por ano. Regressam à volta de 20 mil. Os destinos na procura de melhores condições de vida são, principalmente, o Reino Unido, Espanha, Suíça, França e Alemanha.

Quando um jovem emigra, geralmente, quer voltar ao país que o viu nascer. Vai com o peso no peito de deixar tudo para trás, a família, amigos, a vida que tinha. Vai com a mágoa de ter de deixar tudo, porque o país onde nasceu não lhe dá oportunidades, nem condições de trabalho, nem futuro. Uns vão na esperança de ganhar dinheiro durante um período de tempo, para voltarem com algum pé de meia, outros vão com a perspetiva de ascensão profissional na área que se formaram. A mudança, por si só, é difícil, seja onde for, seja pelo motivo que for. Mas, a adaptação a novas culturas e a integração social em ambientes estrangeiros são os maiores desafios para os jovens emigrantes. As diferenças linguísticas, as condutas sociais e a distância física da família exigem capacidade de adaptação e resiliência. A sensação é a de “serem atirados para a selva”. Foram porque precisaram, agora “desenrasquem-se”. A questão que se impõe é, será que as coisas vão mudar para conseguirem regressar? Será que vão a tempo de voltar se as coisas mudarem? A falta de emprego, o elevado custo de vida e a escassez de habitação acessível são os principais fatores a mudar, de forma urgente, e os mesmos que fazem os jovens abandonar o país. No fundo, todos querem o mesmo, a valorização pelos anos que investiram no estudo e ter uma boa qualidade de vida. Querem viver em vez de “sobreviver”. Estes mesmos jovens são confrontados com a ideia de que só não ficam no seu país porque não querem trabalhar. Uma frase típica das pessoas mais velhas. Mas não as julguemos, cresceram a trabalhar e foram ensinadas que era esse o principal foco. Por outro lado, aos jovens, é-lhes incutido que estudem para terem mais oportunidades do que teve a geração anterior e, foi o que fizeram. São cidadãos mais exigentes, querem mais e melhor, o que não quer dizer que sejam “preguiçosos”. Vão por necessidade, para que o investimento que eles ou os seus pais fizeram nos seus estudos não tenham sido em vão. E mesmo que não seja para trabalhar na área em que se formaram, consideram “receber bem mais” do que em Portugal. São jovens, vivem em centros urbanos e têm qualificações altas. São estes os principais traços da nova geração de emigrantes portugueses. Embora com perfil diferente da geração anterior, o objetivo central é o mesmo: melhorar o nível de vida.

Fotografia estudantes estrangeiros via Público
Fotografia via Público

Há, pelo contrário, quem ache que Portugal reúne as condições necessárias para providenciar uma boa qualidade de vida a quem vem de fora. São muitos os que vêm, seja para estudar, trabalhar ou viver. Posto isto, podemos afirmar que o que é considerado “qualidade de vida” pode variar consoante vários fatores e de acordo com as preferências, necessidades ou valores de cada um. Comparado com outros países, Portugal destaca-se em fatores de grande relevância como a segurança, democracia, direitos humanos e até mesmo na saúde e educação. Mas, a questão da migração não tem sido homogénea, já que, o número de imigrantes residentes em Portugal tem vindo a aumentar consecutivamente nos últimos anos. Nas palavras do antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho “precisamos de ter um país aberto à imigração, mas cuidado que precisamos também de ter um país seguro.” Associou assim o aumento da imigração ao aumento da sensação de insegurança em Portugal. O sociólogo Manuel Carlos Silva, especialista em Desigualdades Sociais, de classe, étnicas e de género, garante que “não há qualquer relação” entre o aumento da imigração e da insegurança” e acrescenta que as declarações feitas podem mesmo “criar animosidade contra os imigrantes”, como já acontece. Em declarações à Lusa, o Presidente da República rejeita que que Portugal seja, no seu entender, um país xenófobo e acrescenta: “O envelhecimento das sociedades europeias criou aquilo a que eu chamo o medo, uma atitude reativa, defensiva e, portanto, de rejeição da diferença, e daí até à xenofobia é um pequeno passo e tem de se estar atento a esse pequeno passo porque significa menos democracia e, até, menos respeito daquilo que é a nossa experiência como país de emigrantes.” Isto faz-nos refletir, ou pelo menos deveria. Se queremos ser aceites e bem recebidos lá fora, também temos de saber receber quem vem de fora. Sendo Portugal um país de emigrantes, não teremos obrigação de compreender melhor os imigrantes estrangeiros que escolheram Portugal para viver? Numa coisa podemos todos concordar, cabe a Portugal tornar-se um país capaz de oferecer amplamente condições dignas a todos os portugueses e estrangeiros.

Mariana Neto – Licenciada em Comunicação Social – Comunidade Lusa

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