Mãe

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto É que Narciso acha feio o que não é espelho Caetano Veloso, in Sampa
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Mãe, escrevo-te esta carta à luz do crepúsculo.

Na verdade, é assim que me sinto. Uma luz ténue, a fechar-se à vida.

E na verdade, também, nunca lerás esta carta. Não seguirá para o correio, nem te será entregue. Escrevo-te para mim. Preciso de, pelo menos uma vez na vida, pôr por escrito, sentir que consegui escrever, inscrever, marcar numa folha branca, toda a dor que me assola. Sim, para que fique bem cravado algures, como sinto todas as marcas da nossa relação. Talvez devesse pintar um enorme mural. Para dar voz a todo este turbilhão que me assola desde menina. Sim, desde menina. Não sinto que possa ter sido criança. Brincar, jogar às escondidas, ou simplesmente ir para a rua, rir e jogar com as outras crianças. Chamavas-me para as tarefas, havia sempre algo que eu devia estar a fazer ou a resolver. Tinha medo. Mas havia também um sabor permanente no meu corpo, não percebia o que era, e que mais tarde compreendi que as pessoas denominam de culpa.

Trespassou-me o coração e o corpo para sempre. Todas as minhas relações vivem, em parte, de culpabilidade. Sentia-me sempre em falta, como se nunca fosse suficiente, como nunca chegasse, por mais que eu fizesse ou me comportasse. E tinha de tratar de ti! Sim, de ti. Tinhas tanta coisa para resolver, apesar de estares em casa, enquanto o pai ia para o trabalho. O pai não estava e quando chegava era distante. Não brincávamos juntos, e não raras vezes, dizia-me para te ajudar. Como se também ele achasse que eu tinha de cuidar de ti. Saía de casa cedo e voltava tarde. Acho que também ele queria fugir de muita coisa que se passava lá em casa. Nunca senti preocupação por mim. Apenas mais tarde, e só para saber onde é que andava e com quem é que podia estar.

O mundo parecia-te pesado. A tua saúde nunca estava bem e, às vezes, até parecia descortinar raiva nos teus olhos. A tua enorme frustração que parecia nunca ter uma razão plausível. Nunca compreendi isso em miúda, mas hoje penso, que também me devia sentir culpada por tu não estares bem. Devia ser por minha causa. Eu, não devia estar a ser uma boa menina. Senti tanto medo de ti. Minha mãe. E a história e as estórias eram, e são, sempre sobre ti. Tu não vês, talvez não possas, mas as conversas flutuam e rodam acerca de ti, da tua vida, das tuas enormes dificuldades. E até mesmo das tuas enormes qualidades. Também a ti te deve ter assolado a maldição de Narciso, aquele que acabou preso no castigo de amar a sua própria imagem em espelho. E que nessa adoração se perde em vazio e em vida. Como é que me poderias ver? Enfeitiçada, pelo teu espelho que te adora. Não me senti vista. Reconhecida. Validada. Não senti o afeto e o amor. Não me senti segura.

Tantos anos já passaram, e só agora, muito tempo depois, percebo que nada daquilo deveria ter sido assim. Hoje, sou mãe, e não consigo ser assim para os meus filhos. Nunca. E só consegui compreender-me melhor quando também consegui conectar-me com as emoções brutais com que aquela menina pequenina teve de lidar. Sem uma consciência adulta, quase tudo se joga no plano emocional. Hoje compreendo um pouco melhor. E mesmo assim, é tão doloroso escrever tudo isto. A mãe é a segurança, o afeto, o carinho, o amor incondicional. O mundo reconhece universalmente o papel da mãe. Mas tu mãe, não foste isso para mim. Ainda hoje não o és. É uma dor escrever isto sobre ti. Sobre nós. Sobre a nossa relação. Sim, ser mãe é ter as suas idiossincrasias, também tens uma história, e de amarras das quais nunca te libertaste. Mas a culpa não é minha. Esta carta é para mim. Precisava muito de me dizer isto.

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