Burro velho não aprende línguas?

Aprendemos uns com os outros e, contrariar isso, é continuar a potenciar discursos de ódio e discussões por características que são intrínsecas ao ser humano. Querer evoluir é uma escolha, independentemente da idade que temos.-
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Há um ditado popular que diz que burro velho não aprende línguas, dando a entender que, a partir de uma certa idade, deixam de conseguir assimilar novos conhecimentos, conceitos, vivencias.

Este ditado é também muitas vezes utilizado como desculpa pelas pessoas que não querem evoluir ou adaptar-se, enquanto cidadãos de uma sociedade contemporânea, a novas formas de ser e estar.

“Ah, mas cresceram noutro tempo”; “Antigamente não se falava disso”; “São muitas modernices hoje em dia”. Compreendo que, para quem cresceu noutra geração e já viveu o suficiente para saber o que é crescer sem telemóvel ou qualquer outro tipo de tecnologia avançada, seja difícil assimilar a rapidez com que o mundo evoluiu e aceitar a maneira como os mais jovens vivem em sociedade e encaram a vida. Eu sou uma “millennial” ou da “geração z”, como preferirem. Sei que sou privilegiada e quero deixar desde já bem claro que, não considero que uma geração seja melhor ou pior, nem mais fácil ou difícil. O que distingue as diferentes gerações são os estilos de vida, a educação e as experiências vividas que, devemos aceitar e respeitar.

A geração que nasceu após a segunda guerra mundial foi criada com mais sacrifício, devido às escassas ofertas de trabalho, serviços e produtos. Têm por isso, um sentido de compromisso e lealdade muito mais vincado, seja na vida pessoal como profissional. São do tempo em que um trabalho “era para a vida toda” e por isso, apreciam e preocupam-se com a estabilidade. O estilo de vida, nessa altura, era mais desacelerado, tinham tempo para se ir moldando e adaptando às mudanças que iam surgindo. Já os millennials e a geração z, cresceram na era da globalização e acompanharam a explosão da internet e da informática. Somos a “geração tecnológica”. Não foi uma escolha nossa, mas tivemos, também, de nos adaptar e ajudar a essa realidade.

Os mais velhos têm tendência a comparar os desafios pelos quais passaram, com os desafios que os jovens passam atualmente. É uma guerra aberta para verem quem sofreu ou sofre mais. Dizem que somos “preguiçosos”, “queixinhas”, “mal-educados” e que “não sabemos nada sobre a vida”. Não me parece razoável colocar uma geração inteira no mesmo saco…

Os mais velhos foram educados para seguir uma via de um só sentido. Os mais jovens deparam-se com várias vias, com mais opções, o que pode ser ainda mais confuso. Quero com isto dizer que, antigamente, as mulheres, eram criadas para fazer apenas uma coisa e os homens outra. Isso não era discutível sequer. Foram educados para não se queixarem e não exporem os seus sentimentos e problemas. Mas, não confundamos repressão com resiliência, como ouvi uma vez uma psicóloga dizer, e, faz-me sentido.

Atualmente fala-se de tudo e mais alguma coisa, é um facto. Não há filtros e tudo o que se falava apenas na esfera familiar (ou nem isso), é agora muitas vezes exposto ao mundo, sejam coisas boas ou coisas más. Essa vulnerabilidade faz com que apelidam os jovens de fracos. Na verdade, temos apenas o poder da palavra e liberdade de expressão e usamo-la para exprimir os nossos sentimentos e necessidades, em vez de reprimi-los. Isso é algo positivo e até mais saudável. A verdade é que cada geração tem as suas dificuldades, que são muito diferentes, e, por isso, não são comparáveis.

Eu acredito na evolução. É difícil mudar mentalidades sim, mas ninguém tem de compreender ou concordar com tudo. Às vezes basta aceitar e respeitar a existência do outro e as suas escolhas. Trata-se de saber respeitar a diversidade humana. Tem de haver um interesse mútuo, em perceber certos conceitos e escolhas, por muito que não seja uma realidade próxima.

Usar a idade como um posto

As pessoas mais velhas tendem a usar a idade como um posto. Como? Utilizando a idade como desculpa para a falta de compreensão, empatia e evolução. Independentemente da geração em que nasceram, acredito que, a maioria de nós, seres humanos, é dotado de capacidades cognitivas que nos permitem ver mais, para além do que sabemos e vivenciámos ao longo da nossa vida. Não podemos ficar presos apenas ao que sabemos, ou pensamos saber. As coisas não são só pretas ou brancas, há toda uma diversidade de cores. Por isso, não me venham com “na minha altura era tudo diferente”; “já estou velho para isso” ou “a vossa geração está perdida”. Identidade de género, orientação sexual, cor de pele ou religião, são alguns dos temas que mais controvérsia gera. Não me cabe a mim falar sobre isso. O que eu sei, é que por mais que não se consiga compreender certas escolhas, temos de aceitar e respeitar. Assim como os mais novos devem respeitar os mais velhos, também os mais velhos devem respeitar os mais novos.

Aprendemos uns com os outros e, contrariar isso, é continuar a potenciar discursos de ódio e discussões por características que são intrínsecas ao ser humano. Querer evoluir é uma escolha, independentemente da idade que temos.

Mariana Neto – Licenciada em Comunicação Social – Comunidade Lusa

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