Opinião

“Queria agradecer aos africanos por tudo o que foi produzido durante 350 anos de escravidão”, disse Lula da Silva, em Cabo Verde, dia 19.

Quando os colaboradores “traduziram” a frase – “o que ele quis dizer foi que o Brasil tem uma dívida histórica com África mas acabou por se atrapalhar com as palavras dando sentido oposto” – já a esquerda havia apontado o dedo ao presidente por ter tratado o flagelo como uma mera prestação de serviço. E a direita, boa parte dela ainda saudosa da escravidão, diga-se de passagem, amplificara a frase em forma de meme nas redes sociais.

As gafes de Lula são lendárias mas ganharam força porque, por um lado, as fronteiras à esquerda do que é política, social, económica e culturalmente aceitável dizer-se encolheram muito nos últimos anos, e, por outro, porque o ex-sindicalista passou de apenas rejeitado a muito odiado por uma parcela da direita que lhe vigia cada sussurro, cada esgar.

Lula, nalguns casos, não se tem ajudado. Disse que “o conceito de democracia é relativo”, ao tentar justificar o regime, no mínimo musculado, de Nicolás Maduro, na Venezuela, branqueou os desmandos de Daniel Ortega, na Nicarágua, e equiparou, para horror internacional, a Rússia à Ucrânia. “Volodymyr Zelensky quis a guerra” chegou a afirmar, antes de entrarem em ação os tais colaboradores-tradutores.

Analistas comentaram, com acidez, que a única declaração acertada até hoje de Lula sobre o conflito foi a do dia da suposta rebelião do Grupo Wagner. “Não posso comentar, seria precipitado da minha parte fazer juízo de valor sobre um assunto que desconheço”.

Por causa da Ucrânia, o Libération titulou até Lula, a deceção, por acaso, horas antes de, na mesma Paris do jornal, o presidente do Brasil dizer, com o Arco do Triunfo ao fundo, que “quem poluiu o planeta nestes últimos 200 anos foram aqueles que fizeram a revolução industrial e por isso têm de pagar”, sob aplausos de pé de uma plateia sobretudo jovem no encontro Power Our Planet, que reuniu lideranças mundiais e ícones da música.

Lula, entretanto, vem sendo acusado de gordofobia contra Flávio Dino, por fazer piadas sobre a dieta do ministro da Justiça, e de preconceito contra doenças mentais por chamar os atiradores em escolas de “gente com desequilíbrio de parafuso”.

Ao chamar Jair Bolsonaro de “capiau” (saloio, parolo) associou a população nascida no interior de São Paulo, como o ex-presidente, à ignorância mas o percalço maior foi a ode involuntária ao machismo, quando pretendia insurgir-se contra a violência doméstica: “Quer bater em mulher? Vá bater noutro lugar, mas não dentro da sua casa ou no Brasil”.

No contexto do movimento que deteta preconceito em tudo o que mexe há, entretanto, alertas que beiram o ridículo: mesmo depois de trocar “índio” por “indígena” e “escravo” por “escravizado”, conforme alerta da intelligentsia que o rodeia, Lula foi acusado de perpetuar o estigma da submissão da mulher ao dizer que se sentia, aos 77, “com tesão de 20”. E até de segregar os vegetarianos quando prometeu em campanha devolver aos pobres a possibilidade de “comer picanha”.

PS: Já depois de iniciado este texto, o presidente brasileiro, cansado das críticas sobre a picanha, a Ucrânia, a gordofobia, Maduro e a escravidão prometeu reduzir os improvisos e anunciou a contratação de quatro colaboradores para o ajudarem nos discursos.

Jornalista, correspondente em São Paulo

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