A depressão e ansiedade são uma “moda”, acabam por passar…

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“Não tens motivos nenhuns para estar assim”, “tens de sair mais”, “tens demasiado tempo livre”, “não te falta nada” – estas são algumas das frases com que as pessoas que sofrem com algum tipo de doença mental são brindadas ao longo da sua vida. Nem sempre são ditas com a intenção de magoar ou ferir, mas a desvalorização daquilo que se sente acaba sempre por deixar algumas mazelas e um sentimento de culpa.

O ser humano é desconfiado de tudo aquilo que não consegue ver ou sentir. Sabemos que temos uma ferida e que vai cicatrizar porque conseguimos ver a olho nuo o processo fisiológico que o corpo faz para restaurar e regenerar o tecido danificado. De dia para dia vemos esse processo acontecer até a ferida desaparecer por completo. O mesmo não acontece quando se trata de saúde mental. É uma ferida que não se vê, mas as feridas invisíveis também sangram. Sentimos as emoções e muitas vezes não as conseguimos interpretar ou explicar aos outros. Os problemas de saúde mental como depressão e ansiedade apenas são visíveis através das nossas expressões, atitudes e ações e, muitas vezes, são confundidas com estar mal disposta, estar de mau humor, estar irritada ou cansada. Todas estas emoções, quando duram muito tempo e estão sempre presentes no nosso dia a dia são reflexo desses mesmos problemas de saúde mental, não são casos isolados, como é natural toda a gente ter. Há uma desvalorização da depressão e ansiedade porque são silenciosas e, como há cada vez mais pessoas a debater-se com esta questão, pode haver uma tendência para desvalorizar, como se fosse “uma moda” (como já ouvi dizer), que acaba por passar. Não é uma “moda” e temos de parar com este estigma. Muitas das vezes são aqueles que nos são mais próximos que não conseguem perceber pelo que estamos a passar e ficam confusos quando admitimos estar mal e a precisar de ajuda. “Não te falta nada, porque estás assim?”, “há pessoas bem piores”, “tens de dar a volta por cima”, dizem. Se não faltar nada fosse o problema, muitas celebridades que admirávamos não se tinham suicidado ou falecido precocemente por dependência de substâncias psicoativas. A mente é tão complexa que a maior parte das vezes nem a pessoa lesada sabe a razão de sentir o que sente e de se sentir mal. Há uma proximidade e ao mesmo tempo distância entre estas pessoas que nos são tão próximas. Acompanharam-nos a vida toda e, por isso, acham que sabem tudo sobre nós e aquilo que passámos, mas, na verdade, só sabem o que veem à superfície. Só quem passa pelas situações sabe ou vem a descobrir mais tarde os danos que lhe causaram internamente. Situações pelas quais passámos na adolescência podem vir a refletir-se mais tarde já na vida adulta. Por mais que as pessoas da nossa vida nos tentem compreender e apoiar nem sempre conseguem e, na verdade, não deve recair nelas esse peso e responsabilidade de ficarmos melhor. Há coisas que não conseguimos partilhar com os nossos pais, irmãos ou namorado/a. Nem sempre conseguimos lidar com as nossas emoções e essa carga emocional que acumulamos ao longo dos anos reflete-se mais tarde se não for tratada. Por isso mesmo é necessário pedir ajuda a um profissional. É difícil dar esse primeiro passo, principalmente quando ouvimos certos comentários como, “estás assim porque tens demasiado tempo livre” ou, “antigamente não havia depressões”. Bom, eu digo que antigamente também não tínhamos tantos estímulos, distrações ou tantas preocupações como temos atualmente. Se repararem, as mesmas pessoas que dizem isso, são também as que têm algo por resolver, nem que seja a falta de empatia e compreensão com o outro. Pessoas com falta de empatia podem ter dificuldades em entender a perspetiva dos outros, podem ter comportamentos egocêntricos e serem indiferentes aos sentimentos alheios, o que pode estar associado ao transtorno de personalidade antissocial, por exemplo. Qualquer frase ou expressão com a palavra “Saúde”, é para ser levada a sério e deve ser encarada como uma prioridade, física, psicológica ou social. Não deve ser considerado um capricho, algo secundário ou meramente um luxo ao qual alguns se dedicam como forma de ocupar o seu tempo livre. Pelo contrário, é um sinal de inteligência, que deve ser levado muito a sério, não apenas quando se está doente, mas também para nos mantermos saudáveis ao longo da nossa vida. Aqueles que acham que procurar ajuda de profissionais de saúde mental “é para maluquinhos”, devem ponderar muito bem antes de tecerem certos comentários. Ao contrário do que alguns pensam, não é uma simples “conversa de café” ou apenas para “pessoas frágeis”, pelo contrário é uma prova de que se é forte, é um processo destinado a quem procura cuidar-se, evoluir e manter-se capaz e saudável, é um momento onde as pessoas se podem expressar livre e tranquilamente, sem estarem sujeitas a críticas, preconceitos, ou juízos de valor. Para ser mais fácil de entender, podemos comparar a terapia à fisioterapia. Nas primeiras sessões não vemos melhorias, é um processo lento e exigente, muitas vezes frustrante, mas que tem de ser feito para conseguirmos melhorar. Infelizmente, a saúde mental não é deviamente apoiada pelo Estado, sendo um privilégio económico enorme mas, quem tiver essa possibilidade deve aproveitar porque não há saúde sem saúde mental.

Mariana Neto – Licenciada em Comunicação Social – Comunidade Lusa

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