Os cidadãos turcos votam este domingo para escolher um novo presidente e uma nova assembleia de deputados. Estas eleições são, evidentemente, um assunto interno, mas com muita relevância política para a Europa. Não é possível ficar-se indiferente perante este processo eleitoral. A Turquia é um vizinho com 85 milhões de habitantes, mais do que a Alemanha (83 milhões), e com uma cultura societal muito distinta da nossa, por influência da tradição islâmica. A geografia e a história colocaram-na na nossa região geopolítica. É isso que faz desse país um aliado indispensável, apesar de todas as diferenças e contradições.
Com Recep Tayyip Erdogan no poder desde 2003, tem-se assistido nos últimos anos, sobretudo desde 2016, a um crescente distanciamento, por parte da Turquia, da agenda e dos objetivos europeus. Erdogan personalizou em si a autoridade do Estado, de modo autocrático. Acentuou o recurso ao Islão como alavanca política. E tem aproveitado as várias crises ligadas à situação na Síria e mais além, aos fluxos migratórios e de refugiados, e outras dimensões – por exemplo, o peso das vastas comunidades turcas em certos países da Europa, na Alemanha ou na Bélgica, sobretudo -, como moeda de troca no relacionamento do seu país com a União Europeia. E também com a NATO, no que respeita à candidatura da Suécia a membro da Aliança Atlântica. Ultrapassa facilmente a linha que deve separar com clareza as relações de cooperação das práticas de chantagem política e económica. Antes e agora, durante a tragédia ucraniana provocada pela invasão russa, Erdogan tem mantido uma relação ambígua, no essencial amistosa, com Vladimir Putin, sem ter inteiramente em conta o quadro definido pelos seus parceiros da NATO e pela UE.
Erdogan é um parceiro complicado, que ora bate no cravo, ora na ferradura, e sabe causar grandes apreensões, em várias capitais europeias. Todavia, não nos cabe a nós intervir na casa dos vizinhos. O eleitorado turco irá decidir se quer continuar na mesma linha ou se prefere eleger o principal candidato da oposição, Kemal Kiliçdaroglu.
Este será um desafio de monta para Erdogan. Primeiro, porque Kiliçdaroglu conseguiu unir à volta da sua candidatura toda a oposição que conta. Depois, por outras razões. A economia está em crise profunda, como o mostrou a taxa de inflação em 2022 – 85,5%. Os terramotos de fevereiro passado criaram uma enorme crise humanitária e a inadequação das respostas públicas foi vista por muitos cidadãos – 14 milhões foram direta ou indiretamente afetados – como prova da ineficácia da administração do Estado. Os cerca de 3,7 milhões de refugiados sírios aumentam a pressão sobre os serviços sociais e agravam as tensões populares. Para cúmulo de tudo isto, a repressão política e a detenção sistemática de milhares de opositores provocam ondas de mal-estar social e de medo. Centenas de milhares de jovens qualificados saíram do país nos últimos três a quatro anos, à procura de céus mais clementes. O progresso conseguido por Erdogan nos anos passados será em parte ofuscado pelo atual estado da nação.
As sondagens valem o que valem, e nem sempre estão próximas da realidade que sairá das urnas. Isso é especialmente verdade num país fortemente policiado, com um sistema de segurança e de justiça que é inteiramente controlado por quem está no poder. Todavia, elas existem na Turquia, têm alguma credibilidade e dão Kiliçdaroglu como vencedor. Isso pode mesmo acontecer na primeira volta, este domingo, se o candidato conseguir 50% mais um dos votos expressos. Ou então, na segunda volta, que colocará frente a frente a 28 de maio os dois candidatos mais votados.
Em ambos os casos, seja quem for o vencedor, a margem da vitória poderá ser muito estreita. Se assim acontecer, não é impensável supor que o vencido possa recusar-se a aceitar o resultado. Nesse caso, criar-se-ia uma crise política e um processo de agitação social muito graves. Ora, ninguém quer ver a Turquia numa situação de profunda instabilidade interna. Sobretudo nós, os vizinhos europeus. Já temos problemas que bastam. Qualquer indício de crise pós-eleitoral na Turquia deve ser tratado com muita circunspeção e a uma só voz.
// Victor Ângelo
Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU