O facto de poder começar em breve uma grande contraofensiva ucraniana contra as forças ocupantes russas encoraja o aparecimento de iniciativas de paz, vindas de vários quadrantes. Todos sabem que a operação tem estado a ser preparada e acredita-se que já está no terreno uma quantidade relativamente importante dos meios prometidos pelos países que apoiam a Ucrânia, no seu esforço heroico e extraordinário de legítima defesa. O Comandante Militar Supremo da NATO, o General americano Christopher G. Cavoli, foi uma das personalidades que, recentemente, confirmou perante uma comissão do Congresso do seu país a disponibilidade do equipamento. Na minha opinião, isto soa mais a fazer crer que a realidade, mas a verdade é que o material continua a chegar.
O General Valerii Zaluzhnyi, que é o chefe máximo das forças armadas ucranianas, esteve esta semana reunido com Cavoli e deixou bem claro quais são as carências atuais das suas tropas, com uma referência especial às baterias antiaéreas e a certo tipo de munições. Ora, a contraofensiva tem de ter todas as capacidades necessárias para provocar um efeito estratégico sobre a determinação russa de continuar a guerra. Ou seja, apenas deverá ser lançada, na minha opinião, visando, em simultâneo, dois efeitos: quebrar a resistência militar russa e criar divisões políticas muito profundas ao nível de Moscovo. Só assim será possível abrir a possibilidade de um processo de negociações. Dito com toda a clareza, a contraofensiva ucraniana apenas deverá ser publicitada enquanto tal, se e quando tiver uma grande probabilidade de sucesso. Caso contrário, os ucranianos deverão continuar as suas operações militares, com a toda a habilidade e coragem que lhes é reconhecida, mas sem intitular essas ações de contraofensiva. Precisarão, no entanto, de mostrar casos de progresso no combate aos invasores.
Dizem-nos agora que o Vaticano também terá uma iniciativa de paz em curso. Não se sabe o que essa afirmação do Papa Francisco significa, como seria aliás de esperar, já que diligências deste género devem ser tão confidenciais quanto possível.Custa-me a acreditar, no entanto, num possível papel de mediação levado a cabo pelo Vaticano. A Santa Sé tem experiência na matéria — basta lembrar a contribuição decisiva da Comunidade de Santo Egídio no caso da guerra civil em Moçambique, há pouco mais de trinta anos. Mas desta vez, não se trata de reconciliar rebeldes com um governo. É um conflito de alta intensidade. O agressor é uma superpotência nuclear, com uma visão imperialista da nova ordem internacional. Essa visão, que assenta no poder bélico, faz parte da sua natureza histórica, que Vladimir Putin tenta agora fazer renascer: a Federação Russa é ela própria um império, com a etnia russa a dominar um mosaico de nacionalidades distintas.
O Vaticano acumula duas outras fragilidades. Não tem influência religiosa ou político-social nem na Rússia nem na Ucrânia. E é visto por Moscovo como muito próximo da profundamente católica Polónia, país que o Kremlin odeia por ser um sólido aliado de Washington.
Já não diria o mesmo do Brasil. Trata-se de um colosso na América Latina, o que interessa a todas as partes. Mas o Presidente Lula da Silva, por muito bem-intencionado que possa ser, é um aprendiz em matéria de política das grandes potências. Se vier a desempenhar algum papel visível, será sob a batuta da China de Xi Jinping. Aliás, Lula parece estar destinado a ser um simples acólito do líder chinês.
A China é o país que tem mais hipóteses de construir uma plataforma de paz e evitar a enorme escalada que se avizinha. Por isso, a sua responsabilidade é enorme. A conversa telefónica entre os presidentes Xi e Zelensky, a 26 de abril, é altamente significativa. Xi não teria telefonado se não visse no futuro próximo uma oportunidade de negociações que possam ser aceites por ambos os lados. Se tiver êxito, colocará a China no topo da política internacional, da mediação da paz, em paralelo com a sua força económica e comercial. Isto faz parte da ambição de Xi.
Pessoalmente, não teria qualquer preocupação se a China o conseguisse. A questão não reside aí. O problema está no Kremlin, e centra-se na pessoa de Vladimir Putin. Este homem não tem futuro político, pelo que é, e ainda pode vir a ser mais, muito ameaçador. Os drones que acaba de fazer explodir sobre o Kremlin dizem-nos que ele quer acelerar a guerra e responder com toda a força destruidora.
// Victor Ângelo