Um destino em risco
Portugal é um dos destinos turísticos mais procurados da Europa. O sol, as praias, a gastronomia e a hospitalidade fazem parte da marca do país. O turismo é o motor da economia, representa mais de 15% do PIB e emprega centenas de milhares de pessoas. No entanto, este setor tão vital mostra-se também o mais frágil, exposto aos episódios de instabilidade laboral que se vive nos aeroportos.
Greves que deixam marcas
As paralisações que se repetem nos aeroportos portugueses em pleno verão deixam milhares de turistas retidos, voos cancelados e companhias aéreas em sobressalto.
O impacto é imediato: hotéis que perdem reservas, restaurantes com mesas vazias, transportes com menos passageiros. Contudo, o maior dano não surge nas estatísticas, mas sim na confiança.
Um visitante que perde o voo ou que espera oito horas num aeroporto não separa a experiência da imagem do país. Para ele, Portugal passa a ser sinónimo de desorganização e, dificilmente, regressará ao país com o mesmo entusiasmo.
Direitos justos, modelo errado
É justo que os trabalhadores lutem pelos seus direitos? Sem dúvida!
Muitos dos que fazem girar a engrenagem dos aeroportos, desde bagageiros a funcionários de check-in e manutenção, trabalham com salários baixos e condições exigentes.
O problema não está na legitimidade da reivindicação, mas no modelo de negociação.
Em Portugal, o diálogo entre a administração e os trabalhadores parece só existir quando o conflito já explodiu. E quando explode, é no pior momento possível: em agosto, em pleno pico de chegadas e partidas.
Responsabilidade partilhada
A responsabilidade é dupla. Por um lado, as empresas que gerem os aeroportos e o próprio Estado, incapazes de criar mecanismos de negociação antecipada e eficaz. Por outro, sindicatos que sabem que só conseguem exercer pressão se pararem o país nos momentos de maior impacto económico.
O resultado é um ciclo vicioso: passageiros como reféns, trabalhadores descontentes e uma economia turística permanentemente no fio da navalha.
Portugal não pode falhar o embarque
Um país que depende tanto do turismo não pode permitir que a sua principal porta de entrada transmita instabilidade.
Proibir greves em épocas críticas seria um erro — o direito à luta laboral é inegociável. Todavia, ignorar o problema estrutural também é.
É urgente pensar em formas de mediação obrigatória antes de cada época alta, em plataformas de diálogo permanentes e valorizar profissionais que, apesar de invisíveis para o turista, são fundamentais para que tudo corra bem.
O risco de perder mais do que voos
No final, para o turista que perde o voo, pouco importa se a responsabilidade é dos sindicatos, das empresas ou do Estado. Para ele, Portugal falhou. E cada falha é um risco que não nos podemos dar ao luxo de repetir.
Lícia Alves – Comunidade Lusa
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