• Abril 3, 2025
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Eu, mentalidade menor, contribuinte maior, me confesso

Foi notícia nas últimas semanas que a Câmara Municipal de Coimbra decidiu atribuir um financiamento de cerca de meio milhão de euros à empresa privada responsável pela organização de um espetáculo de 4 dias na cidade, de uma filarmonia estrangeira, no próximo mês de maio. Fê-lo, nos seus próprios termos, segundo publicou, porque, dada essa realização, “Coimbra foi aplaudida e invejada por todos! Foi um enorme êxito para Coimbra! Pelos vistos, algumas mentalidades menores ficaram incomodadas com este espetacular conseguimento para Coimbra” (sic). Como é sabido, Mogofores e Ançã estavam também na corrida.

O fado destes autarcas é, segundo discurso direto, “a organização regular de eventos que atraiam milhares de visitantes a Coimbra e afirmem Coimbra como uma cidade cool e musical a nível nacional e internacional” (sic). O evento em causa, já que, como nestes justificados um pouco de história, mas non troppo, cai sempre bem, visa naturalmente dar “mais sentido à construção do estádio para o Euro 2004”. E, afiança a edilidade, esses auditores implacáveis, “os promotores não têm lucros milionários”. “Mas também é preciso interiorizarmos que sem lucros não há empresas nem empregos. Ou é necessário recordar porque que é que a União Soviética, pobre e falida, ruiu como um frágil castelo de cartas?”. Houvesse Coldplay em 1957, e autarcas com esta visão, estava a Laika a ser lançada ao espaço e ruiria imediatamente, aproveitando essa distração menor, esse brutal baralho de cartas vermelho que atemorizava o mundo livre e impedia a promoção de concertos em que a burguesia podia pagar, em liberdade, o seu ingresso nas estrelas, à sua escala e com a possibilidade de repeteco imediato, logo no dia seguinte.

Não quero retomar a sucessão de estudos, rankings e avaliações de cariz científico que a Câmara Municipal de Coimbra cita no seu comunicado, para essencialmente demonstrar que quando as pessoas compram bilhete para ir ver um evento num local tendem a gastar algum dinheiro nesse período e nesse local. Esse é o seu argumento e não o consigo contrariar. Eu próprio, quando vou a um sítio, costumo lá efetivamente passar algum tempo de vida e a citada Oxford Economics não me consegue demonstrar o contrário.

Adiantam também que o preço médio do quarto num hotel na cidade nesses dias é de 300 euros e que “há apartamentos e alojamentos locais ao dobro e ao triplo”, o que parece ser um excelente negócio para a hotelaria de Coimbra, e naturalmente para o mercado paralelo de dormidas e águas quentes e frias, e deve ser verdade. Não sei se está completamente em linha com as nossas preocupações mais recentes com habitação permanente a preços que as pessoas possam pagar, mas, aos primeiros acordes de “Viva la vida”, as certezas tornam-se subitamente, por magia, mais difusas.

Não me entendam mal: eu quero mesmo que Coimbra, tal como outras cidades, se levante do seu marasmo económico e social e que quebre os seus glass ceilings, aprisionada que está por uma estrutura de tipo mafioso, aprimorada há décadas, senão há séculos, mitómana, gananciosa e opressora desde logo de qualquer autocrítica inconveniente. Mas tenho muitas dúvidas se é dever das autoridades não eclesiásticas financiar empresas cujo negócio é ou deveria ser manifestamente lucrativo e usar dinheiros públicos, de todos, para que os coimbrinhas e afins possam ouvir, a poucos metros de sua casa, os Coldplay, quando podiam ouvir tranquilamente, com a sua família não comunista, por exemplo, a RFM, no recato do seu lar.

No entanto levei em momento certo a estocada final, ainda no mesmo comunicado. Aprendi, em estilo de dúvida metódica: “Que grandes concertos tivemos em Coimbra em 8 anos socialistas e comunistas? Apenas o Andrea Bocelli, em plena época de pandemia COVID 19, que juntou 26000 pessoas em dois concertos, metade de um único concerto dos Coldplay”. A ser verdade, e não duvido, é absolutamente esmagador. Em 8 anos – e “anos socialistas e comunistas”, que significam cerca de 760 anos do nosso calendário gregoriano -, apenas o Andrea Bocelli? Caramba! Que dichote para a cidade! Faleci – e, comigo, qualquer dúvida, qualquer indignação, qualquer vestígio de bifana inesperado na camisa às 3 da manhã na Praça da República. 26 mil pessoas para ouvir o Andrea Bocelli? É obra. De facto, socialistas e comunistas, capazes de congregar 26 mil almas para ouvir o Andrea Bocelli, mesmo em Coimbra, mesmo em pandemia, são seres muito perigosos, criminosos por tendência, a erradicar e de vez. As pessoas, em desespero, são capazes de tudo, é o que se comprova. Haja dinheiro, público de preferência, para finalmente educar o gosto e pagar os finos, que isto há gente doida capaz até de ir ver o Bocelli. E a Coimbra!

 

// Miguel Romão

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