Jens Stoltenberg termina o seu mandato em setembro, e creio que Josep Borrell tem como ambição ser o próximo Secretário-geral da NATO. As suas recentes declarações sobre a China parecem mostrar mais vontade de agradar a Washington que realismo político. Por exemplo, propor que as marinhas europeias patrulhem com regularidade o Estreito de Taiwan não tem pés nem cabeça. Não existe essa capacidade na União Europeia: apenas a França, a Alemanha e os Países Baixos poderiam de vez em quando enviar uma fragata para a região, mas isso não teria qualquer peso na região, nem está nos planos desses países. Serviria tão somente para irritar os chineses, sem qualquer efeito dissuasivo.
Borrell sabe que os americanos querem um líder na NATO que tenha uma visão mais ampla do papel da organização e que reconheça que a China acabará por constituir uma ameaça fundamental para os interesses ocidentais. Washington vê a China como o desafio determinante, e global, nos próximos anos. Quer, por isso, que a aliança com a Europa partilhe a mesma visão. Mas para além da falta de meios militares, os países europeus devem enfrentar ameaças na sua vizinhança, bem mais à porta de casa: a Rússia de Vladimir Putin e dos que na Rússia pensam como ele; a instabilidade no Médio Oriente e no Grande Sahel; e o terrorismo importado de sociedades onde impera um radicalismo fanático antiocidental. Esses são os três vetores que devem orientar a defesa europeia.
Também é verdade que os países europeus estão muito longe de atingir uma autonomia eficaz em matéria de defesa. Quando se fala do reforço da soberania europeia, é mais fácil pensar em termos económicos que militares. A UE é uma potência económica e comercial e pouco mais que um gatinho assanhado em matéria de defesa. Para mais, esta é uma área que fratura a coesão entre os estados-membros. Os países do leste da UE, mormente a Polónia e os Bálticos, não acreditam na defesa da Europa sem a ajuda em força dos EUA. Estão a ver isso quando olham para a situação na Ucrânia: sem o envolvimento americano, a sua coordenação, as suas informações de inteligência e os seus recursos militares não teria existido resistência capaz à violência vinda do Kremlin. A Ucrânia seria hoje um território apagado do mapa, uma periferia do imperialismo russo. Emmanuel Macron, quando insiste no afastamento da Europa em relação aos EUA, está errado se a mensagem disser respeito a questões de defesa. Neste momento não há condições para tal. E, realisticamente, essa situação irá continuar por muitos mais anos. A UE não tem num horizonte previsível condições para ser uma potência militar.
Deveria ter, mas não tem: são muitos séculos de rivalidades entre as nações e uma opinião pública que não entende, por falta de lideranças adequadas, a importância da união e da integração no domínio da defesa.
Entre nós, por muito que Borrell fale sobre o que deve ser a nossa política perante a China – uma política do pau e da cenoura -, a sua hipótese de eleição como cabeça civil da NATO é muito baixa. Os estados-membros deverão procurar alguém mais jovem e sobretudo que tenha sido chefe de governo ou de Estado. Também se fala de Ursula von der Leyen, mas penso que preferirá continuar à frente da Comissão Europeia, um posto que oferece mais poder e muita autonomia. Sanna Marin, que foi até há pouco primeira-ministra da Finlândia, é uma candidata com alguns apoios. Mas não são suficientes, por várias razões: o país tem uma longa fronteira com a Rússia, o que pode transformar esse facto num impedimento absoluto; Marin é muito jovem e a sua experiência política é relativamente pouca, não tendo chegado para ganhar as eleições gerais que tiveram lugar no início deste mês.
Penso que seria relevante, para além de ter como próximo Secretário-geral um antigo líder nacional, eleger alguém do sul ou da parte ocidental da Europa. A NATO não pode pensar apenas nos perigos que vêm do Leste. A próxima cimeira, a 11 e 12 de julho em Vilnius, terá de ter isso em conta. E eleger um Secretário-geral, uma mulher de preferência, que seja mais do que um eco dos EUA. Sobretudo, um eco superficial, alheio aos interesses europeus, quando se trata de falar da China.
// Victor Ângelo