Quem não deve não teme

É difícil imaginar o sofrimento da família de Nuno Santos. Quem perdeu familiares ou amigos ou quem escapou por sorte a um acidente de viação grave sabe que o trauma é eterno.

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E piora quando há uma sensação de injustiça. Ou porque os processos nos tribunais se tornam demasiado longos e burocráticos ou porque simplesmente os casos são resolvidos com mais técnica jurídica do que com ações de humanidade. O Estado acaba por falhar nos apoios e na proteção das vítimas, aumentando um sentimento de revolta que dificilmente o tempo apaga.

“Pombinho”, como Nuno Santos era conhecido, morreu atropelado por um carro oficial em que seguia o ministro da Administração Interna. As circunstâncias exatas em que o acidente ocorreu ainda não são públicas. Catorze dias depois, conhecemos a versão do ministério de Eduardo Cabrita que aponta para eventual negligência do trabalhador, soubemos das versões da Brisa que desmentem o MAI relativamente à falta de sinalização dos trabalhos de limpeza que estavam a decorrer na A6, lemos relatos sobre a “velocidade louca” em que a viatura circulava e percebemos que estão instaurados dois inquéritos.

Também notamos que o Governo não esteve presente no funeral de Nuno Santos, o que, independentemente do apuramento de responsabilidades, nos envergonha a todos.

Mas, mais importante que encontrar culpados pelo acidente, mais importante que conhecer a velocidade a que a viatura circulava, é que o país tenha a perceção de que não há dois pesos e duas medidas para tragédias semelhantes.

Não é aceitável enfiar a cabeça na terra como uma avestruz e fazer de conta que nada aconteceu envolvendo um membro do Governo. Espera-se mais. Até porque, como diz o ditado popular, “quem não deve não teme”. E o silêncio de Cabrita começa a ser ensurdecedor.

// Manuel Molinos

Diretor-adjunto

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