“Por virtude do muito imaginar

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Luis Castro Mendes
Luis Castro Mendes

É penetrando no fenómeno da esperança do futuro que o mundo, no foco imaginário, na parte mais escondida e inteligível da nossa subjetividade, faz a sua aparição

(Ernst Bloch, O Espírito da Utopia)

 

Na torre que era sua prisão, Donatien Alphonse, marquês de Sade, aprendeu que “toda a felicidade do homem está na sua imaginação” e que a maior liberdade reside no engenho de muito imaginar. Por esse mesmo caminho, “por virtude do muito imaginar”, transformava também Camões o amador na coisa amada e vivia “cada um com seu contrário num sujeito” (Camões, Canção VII), antecipando os caminhos da dialética pela força da mais fino pensamento da poesia.

Mas agora, em confinamento, vivemos sós entre as nossas paredes e chamamos a nós o mundo todo cada vez que abrimos o computador. A imaginação esbarra na abundância da informação e das imagens, como a barca da poesia para Maiakovski se desfazia “contra os recifes do real quotidiano”. O quotidiano para nós é uma imensa hora estacionada num tempo imóvel e infinito, que avassala sem misericórdia as nossas palavras e os nossos gestos frágeis.

Consideremos ainda que a imaginação pode, em vez de abrir espaço à nossa liberdade, contribuir para a difusa proliferação dos nossos medos. Imaginamos desgraças e fatalidades com tanto pavor que as ameaças sobre nós crescem e acabam por ganhar mais realidade. A imaginação pode libertar, mas a imaginação pode também oprimir e pôr-nos à mercê do tumulto das paixões negativas.

Desta agonia sem verdadeiro combate estão já a emergir alguns textos, algumas palavras, algumas imagens – talvez algum pensamento. É cedo para avaliarmos o que este modo de vida trouxe à nossa experiência do mundo. Nós não sabemos bem se podemos ainda ter experiências. Um barco encalhado no canal de Suez bloqueia o comércio mundial, um vírus de que aprendemos muito depressa o genoma mantém-nos sequestrados sem tréguas, as imagens das coisas perduram como pirilampos a desfazer-se na noite. Podemos tudo e não podemos mais nada.

Um dia olharemos para estes tempos com alguma estranheza e com a distância de quem saberá então qual terá sido a continuação da história. A espécie humana resistirá ao que é apenas mais um vírus a fazer-lhe frente, num combate que vem desde a origem da vida. Mas as condições da nossa vida em sociedade e da nossa ligação aos outros podem sofrer mudanças que não calculamos ainda.

Nós tivemos tempo de aprender que a história se desenrola através de mudanças inesperadas, de crises repentinas e nunca previstas, longe de qualquer teleologia racional ou epifania da verdade. A astúcia da história é apenas o seu cego e infinito jogo das escondidas connosco. E nosso é apenas o eco que perdura da nossa resistência, da nossa pura e intransigente afirmação de sermos humanos, de darmos luta a tudo o que nos apaga ou nos destrói.

Talvez seja nessa resistência que a imaginação nos irá constituir como agentes do nosso próprio destino. Muitas noites desabarão sobre as nossas esperanças e nada acontecerá como prevíamos. Mas, por dentro da nossa vontade de viver, a força da imaginação não deixará nunca de nos levar a antecipar e a criar. Mesmo que as nossas antecipações não se confirmem e as nossas criações se esboroem por fim na areia do tempo – ainda assim, para sempre se moverá o nosso desejo atrás da esteira brilhante da imaginação.

Diplomata e escritor

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