Obrigado.

Dizer obrigado é fácil. Sobretudo se a palavra é sentida, ela sai fluida e airosa, a silhueta bem desenhada por lábios que se escancaram num sorriso.

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Matosinhos, 08 / 07 / 2015 - Professor Júlio Machado Vaz, fotografado em sua casa. ( Artur Machado / Global Imagens )

Vem isto a propósito de ter iniciado o processo de vacinação na USF Porto Douro. Sou professor de Antropologia Médica. Vai daí, apesar da minha relação tensa com agulhas, o radar manteve-se activo. A competência técnica foi evidente, mas emoldurada pela relação pessoal que faz quem chega sentir-se uma pessoa acolhida por outra, essa empatia melhora a eficácia pretendida. Naquele momento e depois, quando regressamos a penates com indicações a seguir.

Em casa. “Público”, Patrícia Carvalho – “Profissionais de saúde podem ser forçados, mais um ano, a acumular férias.” Ou seja: há férias de 2020 por gozar e a elas podem juntar-se outras de 2021. Sei que não se pode baixar a guarda por causa da covid e há todo um funcionamento basal a recuperar, mas esticar demasiado a corda é perigoso, o burnout dos profissionais arrasa-os e – digo-o sem arrebiques – torna os erros mais prováveis.

O que se passa ao nível dos Cuidados de Saúde Primários é preocupante. Tomemos a vacinação: ela implica profissionais nas Unidades e nos Centros de Vacinação (desejavelmente a funcionarem sete dias por semana). Nos dois locais as mesmas pessoas… Não sabendo antecipadamente o número de ampolas disponíveis, a organização do serviço complica-se, é preciso convocar os utentes, gerir a sua acumulação nas salas de espera, desmarcar as consultas previstas para os profissionais envolvidos. Juntemos-lhe o acompanhamento diário dos casos suspeitos ou positivos no seu domicílio e os pedidos de declarações para os mais diversos fins.

Mais. Embora se tenha mantido a vigilância da saúde materna, da saúde infantil e o atendimento aos casos agudos, é evidente que com o desconfinamento a população está ansiosa por retomar as vigilâncias perdidas. Sem esquecer que a “procura indirecta” se mantém, as pessoas telefonam e enviam mail, porque já se habituaram ou por, frustradas, não conseguirem o contacto desejado. O que muitas vezes desagua numa imagem distorcida do profissionalismo de quem não se revela disponível… por estar atascado em trabalho! Acrescentemos a este cenário a recente portaria que prevê o funcionamento nocturno e aos sábados de manhã das Unidades. Com as mesmas pessoas…

Existirão algumas a funcionar abaixo do exigível? Claro, não é minha intenção canonizar os profissionais dos Cuidados de Saúde Primários. Mas reconhecer-lhes o papel fulcral na sobrevivência do SNS e registar o meu obrigado é um dever ético. E fica o aviso, já feito por outros – há limites que, se ultrapassados, ignoram a Justiça e põem em risco a Saúde.

A deles e a nossa.

// Júlio Machado Vaz

*Psiquiatra

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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