Quando assim foi, ficam feridas psicológicas, as quais podem ser ainda mais acicatadas no convívio natalício, por vezes unicamente impulsionado pela pressão social ou pela pressão de transmitir a imagem de uma família perfeita para os demais.

Dizem-me, muitas vezes, em consulta “se não fosse o meu pai/mãe, seria muito mais fácil, agora assim não tenho como fugir”, criando um sofrimento e ambivalência atroz. Até porque a expectativa é de que o contexto familiar seja um local de afeto, cuidado, nutrição emocional e proteção do perigo. Mas, de facto, sabe-se que a conduta utilitária e teleológica do ofensor, muitas vezes com traços narcísicos ou psicopáticos, não se detém perante as relações familiares, inclusive os filhos. A capacidade de seduzir, de atuar sem remorsos continua sempre presente, mesmo que se possa manifestar em pequenos atos, em subtilezas que vão devastando lentamente.

O abuso emocional vivido em contexto familiar, enquanto experiência adversa na infância, encontra-se muito frequentemente na causa de vulnerabilidades futuras, como por exemplo ao nível das relações amorosas. Aliás, viver um vínculo traumático na infância pode ser motivo de muitas pessoas se arrastarem durante anos a fio, reproduzindo padrões disfuncionais.

Ter esta consciência é difícil. Iñaki Piñuel, Doutorado em Psicologia pela Universidade Complutense de Madrid, escreve que quem cresceu numa família tóxica encoberta quase nunca a reconhece enquanto tal, ignorando a ausência de cuidado e proteção que vivenciou, a insegurança e imprevisibilidade das reações inconsistentes dos progenitores ou a distorção da comunicação.

Quando falamos em famílias maltratantes, não estamos a falar unicamente em famílias violentas e abusivas fisicamente, ou de famílias emocionalmente instáveis. Estamos a falar também de famílias manipuladoras, em que uma das figuras parentais pode assumir um registo de manipulação, sedução narcisista, chantagens, de coação, de abuso emocional, de anulação, de ironias, de menosprezo.

Aqui chegados há um duplo desafio, que parece ainda mais intransponível em épocas em que o contacto é forçado ou socialmente esperado. Primeiramente, sobreviver ao trauma causado e, depois, tentar gerir o contacto, de um modo seguro, com a figura parental que foi, e muitas vezes continua a ser, fonte de abuso.

Esta criança, mais tarde adulta, sente, não raras vezes, que cometeu erros, que a culpa pode ser sua, que não soube corresponder enquanto filho(a). Quando existem irmãos, pode até dar-se a extensão da discórdia, no fundo como uma estratégia do ofensor de dividir para reinar. Assim, pode passar a ver os restantes familiares como adversários, seja porque tomaram partidos através de argumentos manipulados, seja porque foram omissos na defesa daquele que serviu de bode expiatório de todos os males. Deste modo, o desconforto é ainda maior, antecipando-se com amargura o que será a noite de Natal.

É certo que isto não é a realidade pela qual todas as pessoas passam, mas a euforia natalícia, ainda que mágica, não nos pode fazer perder de vista quem sofre por aqueles que tinham o dever de os(as) amar, cuidar e educar não terem cumprido o seu papel. Perceba que não ter recebido afeto, nem ter sido amado(a) incondicionalmente, não diz nada de mal sobre si, mas antes relativamente àquele(a) que fracassou na obrigação parental de lhe construir uma base segura de apego. Por isso, é totalmente compreensível que não queira estar, mesmo em época festiva, num ambiente tóxico.

Por Sic Notícias.

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