Guia para pais. O meu filho vai para a faculdade, e agora?

Saiba como ajudar, orientando e conversando com o seu filho que inicia agora uma nova etapa.

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escolha do futuro profissional é pessoal e intransmissível, mas a verdade é que os pais podem ser um pilar numa altura em que se tomam tantas decisões importantes. É preciso escolher o curso, a cidade onde se vai estudar, onde se vai viver, com quem se vai partilhar casa… 

São muitas as decisões para tomar e é bem possível que este tema possa levar a tensões familiares. 

Notícias ao Minuto falou com duas psicólogas e elaborou um guia para pais e educadores. Como apoiar, o que dizer, como orientar. 

A apresentação da candidatura à 1.ª fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior começou esta segunda-feira, 25 de julho, e decorre até 8 de agosto.

Numa altura em que o crescimento é inegável e os jovens dão o maior passo para a vida adulta, os pais, na maioria dos casos, continuam a ser a principal fonte de suporte dos filhos no momento de escolherem a sua profissão.

“Seja pela imitação, seja pela influência, os filhos levam em consideração a sua opinião. O maior desafio, a isenção dos pais. Muitas vezes, os pais estão tão preocupados em que os filhos lhes sigam as ‘pisadas’ que se esquecem de os ouvir e projetam os seus sonhos nos seus filhos, retirando-lhes a liberdade da escolha”, começa por nos dizer Vera de Melo, psicóloga clínica e autora. 

“Aos pais cabe o papel de escutar sem julgar e permitir que os filhos revelem os seus desejos, medos e sonhos”

Em suma, nesta fase, os pais devem desempenhar um papel de suporte, de ouvinte, de “energizador para a ação”.

Para Filipa Jardim da Silva, Psicóloga Clínica, Coach e Autora, um pai e mãe – ou demais cuidadores –  podem fazer parte desta fase apoiando o jovem num processo de tomada de “decisão consciente e informada”.

“Assim, vale a pena dotar o jovem de informação relevante, seja informação sobre as opções profissionais estabelecendo pontes com iniciativas ou profissionais de áreas diferentes, seja informação sobre o próprio jovem: quais são as suas principais competências e talentos, o que lhe dá mais prazer, o que valoriza mais se pensar numa área de atividade profissional, que tipo de contributo quer dar na sociedade”.

Para a especialista, quanto mais esta decisão for apoiada para ser uma escolha relacionada com o perfil do jovem, atendendo às suas competências, características e valores, mais tenderá a ser uma escolha sustentável e satisfatória, ao invés de ser uma escolha fruto de pressões familiares, em função de critérios, perspetivas e medos dos progenitores.

Como lidar com a indecisão

Decidir o que se vai estudar nos próximos anos não é imediato para todos sendo este momento, para muitos, de indecisão. Os pais aqui têm um papel fundamental. “Com calma, paciência e tranquilidade, devem ouvir, sem julgar e interromper, os seus filhos”, aconselha Vera de Melo. 

O ideal, segundo a especialista, é levá-los a identificar o critério das suas escolhas, os argumentos positivos e negativos de cada uma delas, a fim de em conjunto, conseguirem ter a melhor decisão e a mais informada.

O pai não pode ter pressa, “a serenidade e a empatia são fundamentais para promover o equilíbrio emocional do jovem”, refere. O pai não se deve esquecer que o seu filho não tem, “nem a sua maturidade, nem a sua experiência de vida, nem o seu conhecimento, não podendo por isso exigir-lhe o que não consegue dar”.

Nesta fase, é preciso ter cuidado para não cair na “armadilha da superproteção,” uma vez que precisa promover a autonomia e aceitar que é inevitável que o seu filho decida por ele e tome decisões, ainda que erradas de acordo com a sua “visão de pai da realidade”. 

Em todo o processo, ajuda o pai/mãe demonstrar ao jovem que confia nele, potenciando a sua autoestima e transmitindo-lhe a ideia de que é capaz de escolher.

Perante a indecisão da escolha, Filipa Jardim da Silva recorda que o autoconhecimento é fundamental. “Existem muitos jovens que não sabem verdadeiramente caracterizar-se, que têm dificuldade em identificar os seus valores ou em reconhecer que talentos e competências maiores os distingue”. 

Este autoconhecimento é fundamental para criar segurança na tomada de decisão. “É nestas etapas que pode ser útil procurar apoio psicológico, de um profissional isento, que ajude mesmo que apenas nesta etapa a que as perguntas certas sejam feitas e assim potencie um processo de tomada de decisão mais consciente e satisfatório”, recorda. 

Quando pais e filhos discordam da escolha

Muitos pais não concordam com a escolha profissional dos filhos, o que se pode tornar uma fonte de conflito e afetar o equilíbrio da família. Aqui, é importante que o jovem partilhe os sentimentos e possa fazer chegar aos pais como se sente perante o desacordo. 

Vera de Melo defende uma “conversa assertiva de como a própria escolha faz sentido para ele, mostrando as habilidades, interesses, sonhos e planos que possui”. Do outro lado da equação, estão os pais. Deve explicar ao seu filho por que é que não concorda com a escolha dele. “Só assim ele compreenderá os seus estereótipos ou receios – como o retorno financeiro e a empregabilidade ajudando-o a repensá-los”, refere a psicóloga, que aconselha evitar o uso da autoridade nesta situação.

Melhor será recorrer a um diálogo empático e focado, “promovendo o consenso e acima de tudo a autonomia e a responsabilização do jovem na sua escolha”

Chegando a este impasse, Filipa Jardim da Silva recorda que um dos maiores objetivos de um pai e de uma mãe é que os seus filhos sejam saudáveis, felizes e autónomos. Assim, uma decisão da carreira profissional é uma decisão com um impacto grande nestas três dimensões e que terá consequências a curto, médio e longo prazo na vida deste jovem, futuro adulto. “

“Mais do que forçar seja o que for, os pais ganham em informar e orientar no melhor sentido, com respeito pela pessoa dos seus filhos. Muitas vezes forçar algo só tende a distorcer processos de tomada de decisão consciente. Saber discordar, negociar e respeitar a diferença são competências essenciais nas relações interpessoais pelo que autonomizar o jovem pela sua decisão será sempre importante para que o mesmo se responsabilize nesse processo”, assevera a especialista. 

A ansiedade da espera

Ultrapassado o momento da candidatura, é altura de esperar pelos resultados. 

E a espera causa diferentes reações nos jovens. “Por vezes nem o sol, as férias de verão, os programas com os amigos, eliminam a ansiedade e uma ligeira tensão que parece pairar no ar”, aponta Vera de Melo.

A expectativa para conquistar a vaga na universidade é elevada e inevitavelmente interfere com o equilíbrio emocional do jovem. Muitos poderão ficar mais irritadiços. Lembre-se, é normal nesta fase. 

“Também aqui os pais têm um papel de suporte, levando a que o jovem se mantenha ocupado e focado naquela que é agora a sua missão, usufruir das tão merecidas férias”

Para Filipa Jardim da Silva, para lidar com qualquer emoção é em primeiro lugar criar espaço para a existência dessa emoção, “com curiosidade, legitimidade e aceitação e sem julgamento, opressão ou evitamento”.

Conseguir dar nome às várias emoções deste tempo de espera, “com flexibilidade para que diferentes emoções possam ir surgindo á vez, é uma estratégia que por si já fomenta regulação emocional”. A psicóloga recorda que os tempos de espera, de transição ou de incerteza “são tempos geradores de maior instabilidade e insegurança pelo que é natural que o nosso estado de espírito reflita isso mesmo”.

Aqui, também esta especialista aconselha a tornar este tempo produtivo com atividades geradoras de prazer, com oportunidades de socialização de qualidade. Quebras de rotina são estratégias complementares que poderão apoiar a viver este entretanto com bem-estar relativo, recorda. 

Dicas a ter em conta para lidar com o stress da espera:

  • Em família delinear planos pode ajudar a lidar com o stress. “Identifiquem, em função dos interesses do jovem, o que fazer para ocupar este tempo livre. Não precisa de ser um plano exaustivo, mas é fundamental a sua existência para evitar o sentimento de inutilidade”.
  • Para a especialista, é fundamental falar abertamente sobre o tema, estimulando o jovem a abordar os seus pensamentos e sentimentos.
  • Iniciar ou manter a prática regular de exercício físico, essencial ao bem-estar.
  • Responsabilizar com pequenas tarefas o jovem, estimulando a sua autonomia e independência.
  • Foco no presente, no dia a dia atual, evitando assim sofrer por antecipação ou catastrofizar.
  • Estimular a procura de ajuda profissional caso o pai denote alterações substanciais de rotinas, exacerbar de reações, o deixar de fazer coisas que antes era fonte de prazer.

Como estimular a  autonomia e a independência 

Mesmo para os jovens que fiquem a viver e estudar perto dos pais ou tutores, aproxima-se uma fase onde lhes serão feitas mais exigências ao nível da responsabilidade. Nesta fase, pode ser aconselhável estimular a autonomia e a independência.

Lembrando que este é um processo gradual que começa desde tenra idade, “nesta fase urge solidificar este processo não fazendo pelo jovem e deixando que por si encontre formas de lidar com os desafios que esta etapa de vida coloca”, diz Vera de Melo. 

Permita que o seu educando use transportes públicos, viaje sozinho, faça uma compra no supermercado para a família, compre uma roupa (dentro de uma faixa de preço pré-estabelecida), resolva pequenos problemas burocráticos da família, por exemplo. Responsabilize-o dando-lhe tarefas e assegurando que as concretiza sozinho, recomenda a especialista. 

Uma outra forma de estimular a responsabilidade pode ser feita por meio da gestão da mesada. “O valor da mesada pode ser estabelecido em conjunto, a partir de uma estimativa de gastos feita pelo próprio. O estabelecimento de um valor mensal, e de uma data de recebimento, ajuda o jovem a aprender a lidar com o dinheiro, estabelecer prioridades, e até aprender a economizar tendo em vista algo especial no futuro”.

Preparar a mudança

Para muitos, estes meses serão os últimos de rotina com os elementos que conheceram nos últimos anos. Daqui para a frente muita coisa será diferente, até a cidade. 

“Quando um estudante entra numa instituição fora da cidade onde reside, múltiplas emoções surgem. Desde a alegria, de não ter os pais a controlar, ao medo de não ter ninguém para se algo ocorrer aparece de tudo um pouco, mais ou menos exacerbado de acordo com a personalidade do jovem”, lembra Vera de Melo. 

Aqui, o segredo para o sucesso e para o descanso de pais e filhos é o planeamento. Planear a mudança de forma estruturada, atempada, faseada, contando com o suporte emocional dos seus pais.

“Planear securiza e transmite ao jovem a ideia de controle, atenuando o medo do desafio, não só pela saudade, mas pelas responsabilidades que virão”

Ainda segundo a especialista Vera de Melo, estão são as 5 dicas fundamentais para os pais terem um papel nesta etapa da vida dos seus filhos, assegurando que esta fase decorre de forma tranquila.

Minimizar. Na vida, nada é definitivo, muito menos a escolha profissional. A escolha de um determinado curso não implica necessariamente que terá de exercer essa profissão para sempre. O desenvolvimento profissional não se processa de forma linear, pelo que há possibilidade de enveredar por outras áreas e fazer outras escolhas. É importante ainda sublinhar que um mesmo curso pode dar lugar a profissões diferentes e a uma carreira distinta. Explicar tudo isto ao filho terá um efeito tranquilizador e permitir-lhe á perceber que o segredo é ter curiosidade para querer aprender mais. 

Respeitar. Apoio, compreensão e acolhimento é o que o jovem espera e necessita ter da sua família, principalmente os mais indecisos ou inseguros. O pai pode até não concordar com a escolha que o seu filho pretende fazer, mas não tem o direito de recriminar, fazer chantagens emocionais, desmerecer a profissão/ou o potencial dele e muito menos impedi-lo com autoritarismo de seguir o seu sonho.

Potenciar conhecimento. Falar sobre as profissões da família (pais, avós, tios), permite que o filho amplie o conhecimento sobre o mundo das profissões e também tenha contacto com diferentes trajetórias profissionais, permitindo-lhe fazer uma escolha mais consciente e informada. 

Aconselhar. O pai deve orientar positivamente o filho na tomada de decisão, até porque ele será influenciado por diversas pessoas, sejam professores, amigos, namorados, ídolos. No entanto, deve garantir que não impõe a sua escolha. Tal em nada seria benéfico para o seu filho, pois anularia os seus desejos e interesses, causando um elevado abalo na sua autoestima. 

Manifestar abertura. Impedir o filho de trilhar uma profissão que ele considera ser promissora pode demonstrar uma profunda falta de conhecimento. O mercado de trabalho não é o mesmo por isso os pais devem predispor-se a aprender com o filho, ouvindo e escutando-o, tendo em mente que o risco de falha e de infelicidade é mais elevado se o seu filho é forçado a assumir uma vocação que não é a dele.

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