Fahrenheit 451, aqui e agora

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João Lopes
Fotograma de “Fahrenheit 451” (1966), de François Truffaut: o fogo da ignorância.

A cena passa-se num canal televisivo de desporto, no começo da transmissão de um jogo de futebol. Há duas vozes. O locutor apresenta o comentador, cedendo-lhe a palavra. E obtém como resposta:
“Cumprimentar-te. E cumprimentar os nossos espectadores.”

Assim mesmo: uma prodigiosa grosseria gramatical plasmada no uso aberrante do tempo infinitivo do verbo. Ao que parece, o comentador desconhece que deve usar o presente do indicativo, já que a sua acção pertence ao próprio tempo (presente) em que é enunciada. A saber: “Cumprimento-te e cumprimento os nossos espectadores.” Com algumas variações possíveis, claro. Por exemplo: “Começo por cumprimentar-te e cumprimentar os nossos espectadores.”

Impõe-se uma chamada de atenção ao leitor mais precipitado. Não estou a empolar um erro pontual de uma pessoa. Há muitos anos, quer em rádio, quer em televisão, sou o primeiro e mais obstinado crítico dos meus próprios erros (muitos e, para mim, muito penosos) e não tenho qualquer gosto em transformar os erros dos outros em arma de arremesso contra quem quer que seja – neste caso, tragicamente, creio que o comentador nem sequer tem consciência do erro que comete (nem ninguém lhe terá chamado a devida atenção).

E mais um esclarecimento. Ao contrário do que sugere um velho e estúpido lugar-comum contra os que escrevem sobre domínios artísticos (por exemplo, o cinema), não encaro o universo do futebol como um alvo potencial de chacota, muito menos de insulto. Aliás, se começo por citar um exemplo que tem que ver com o futebol, é apenas porque esse é um domínio de eleição no meu consumo televisivo – sei do que estou a falar.

Estou a falar, não da utilização mais ou menos interessante da língua portuguesa por A, B ou C, mas sim de uma verdadeira praga de infinitivos que se tornou, como se diz agora, transversal – do jornalista mais banal ao político mais mediático. Como aquele repórter postado no local do acontecimento que em vez de dizer, por exemplo, “lembramos que a reunião começou há duas horas…”, lança qualquer coisa do género: “Lembrar que a reunião começou…” Ou ainda: “Referir que a importância desta reunião…”

Será preciso acrescentar que estas peripécias estão longe de se esgotar no domínio audiovisual? Definitivamente, compreendi que estamos a atravessar um período de barbárie linguística quando alguém, em nome do marketing e da sua proverbial “comunicação de eventos”, me endereçou algumas preciosas informações, iniciando a sua missiva com esta abstrusa acrobacia: “Começar por esperar que este e-mail o encontre bem…”

Quando semelhante desastre cultural já não fica confinado ao espaço específico das falas, imiscuindo-se no território sagrado da escrita, atrevo-me a pensar que estamos perante algo de muito grave. Pedindo desculpa pelo meu cepticismo, considero mesmo que os discursos piedosos, ora voluntaristas, ora paternalistas, de “defesa da língua portuguesa” não têm qualquer poder para alterar o estado das coisas.

De onde vem, então, esta avalanche de acontecimentos aprisionados num único tempo verbal, o mais primitivo, agora reduzido a avatar de tudo e mais alguma coisa, sem que se vislumbre um horizonte de passado, presente ou futuro? Nada a ver, entenda-se, com o “ser ou não ser” de Shakespeare, já que a dicotomia dos infinitivos surge aí, não como bloqueio argumentativo, antes como abertura de uma nova paisagem de (e para o) pensamento. A angustiada formulação do Príncipe da Dinamarca derrama-se num cenário vibrante: “Ser ou não ser, eis a questão”.

A questão é, talvez, de abastardamento da língua através da vertigem pueril das imagens. Não tenho a certeza, mas é uma hipótese que, creio, vale a pena ser formulada. Dir-se-ia que a hiper-abundância do “visual” nos transformou em marionetas da percepção. Qualquer imagem produzida neste instante, no lugar em que me encontro, pode estar no instante seguinte do outro lado do planeta: não se trata de uma especulação de ficção científica, mas de algo que está a acontecer biliões de vezes por segundo – aqui e agora.

Aqui e agora? Eis uma patética ilusão. O infinitivo ignora que o “aqui” pressupõe alguma relação com o que “não está aqui”, do mesmo modo que reduz o “agora” a uma unicidade sem fronteiras. Dito de outro modo: a não conjugação dos verbos ignora as dobras do tempo, como se vivêssemos numa colagem de instantes universais em que tudo é homogéneo, monótono e indiferente – somos todos marionetas do império global das imagens, não sabemos que passado herdámos, que presente nos define, que futuro podemos enunciar. Já nem sequer sabemos formular um cumprimento: “cumprimentar-te”, “lembrar”, “referir”…

É certo que não vivemos no mundo de Fahrenheit 451, de Ray Bradbury (mais tarde filmado por François Truffaut), em que já não há fogos que destruam as casas: os livros são queimados pelos bombeiros porque perturbam a “harmonia” da sociedade. Afinal de contas, como diz um dos bombeiros desse futuro apocalíptico, censurando uma velha senhora que escolhe morrer no fogo dos seus livros, o perigo provém de um facto singelo: “Não terá uma ponta de bom senso? Não há dois desses livros que estejam de acordo entre si” (tradução de Mário Henrique Leiria). Eis o escândalo supremo: as palavras podem seduzir-nos para os contrastes e sobressaltos do pensamento. Pensar.

 

//Jornalista

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