“Eurovisão: a canção como um todo

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The Black Mamba é uma das bandas mais interessantes do panorama musical português. Foi convidada pela RTP e ganhou. Chegou a Roterdão e deu uma boa imagem, inimaginável para tantos críticos de sofá. A isso se chama profissionalismo.

Para além da voz empática de Tatanka, bem como da melodia e do arranjo instrumental brilhantes, o grupo soube explorar o palco, bem como divulgar a mensagem da canção, o que fez mudar a opinião dos comentadores e fãs internacionais. Portugal foi subindo nas apostas e, por ironia, talvez ganhasse, se este festival fosse lá mais para o verão, bem como, por manifesta realidade, se o televoto não fosse tão estranho e se a RTP tivesse disponibilizado a organização para o próximo ano, tal como fez a RAI, prévia e publicamente. É assim que, nos bastidores, também se atingem os lugares cimeiros.

Quero com isto dizer que, nas cantigas e não só, os portugueses têm uma capacidade de superação notável, e a imagem de Portugal beneficia, mas faltará a argúcia diplomática. Desde 2016 (ano de reflexão) que a RTP enfrenta este festival de uma outra forma, captando músicos que, antes, talvez recusassem participar, mas isso não deve fazer esquecer nem a história, em que milhares de intervenientes e centenas de canções ajudaram a manter a edição nacional, nem os péssimos resultados, alguns muito recentes.

Entre Amar pelos Dois e Love Is on My Side há uma diferença estrutural: o idioma. E se eu, por princípio, prefiro ouvir palavras em português lá fora, com esta participação confirmo o que tenho divulgado em diferentes circunstâncias, na sequência dos estudos sobre a promoção da imagem de Portugal, ou seja, considero que o que vale é o produto como um todo. Assim como o país, como destino turístico.

Um outro exemplo comparativo é entre Love Is on My Side e Telemóveis, canção esta que começou como uma das favoritas e foi baixando drasticamente nas apostas, porque a parte fraca esteve na encenação e na indumentária, menos surpreendentes na Eurovisão.

No mesmo sentido, dizer-se, ontem, na RTP, que se atingiu a segunda melhor pontuação de sempre, sendo correto em números absolutos de votos, não deixa de ser uma desonestidade comunicacional, pois não se podem comparar estes anos recentes com as décadas mais recuadas, sem que haja um eventual modelo matemático que certifique ou não essa afirmação.

Estas análises comparativas são barómetros para se pensar o futuro. Já escrevi anteriormente que uma canção tem um valor estratégico, cultural e económico e, desejavelmente, deve ser pensada para conquistar a empatia do público. Cabe à RTP definir equipas e formatos. Cabe aos autores e compositores apresentarem a sua interpretação do fenómeno eurovisivo atual. Cabe a ambas as partes tornarem relevante o nome de Portugal, através da nossa representante, usando todas as investidas legítimas.

E quando, finalmente, a RTP irá ter um novo e competente presidente, espera-se a aposta numa política de investimento anual na música, abrindo as escolhas e divulgando projetos musicais sólidos e com estilo próprio, em que as melodias e as mensagens se encontram como verdadeiros e necessários hinos de esperança.

// Jorge Mangorrinha

Investigador em eurovisiologia

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