As vacinas e a tragédia moral

É natural que todos os dias olhemos para a atualização de dados da vacinação com expectativa e interesse. O que vivemos é uma espécie de corrida contra o tempo.

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Inês Cardoso

Queremos conseguir a imunidade antes que a circulação de variantes potencialmente resistentes coloque em causa a eficácia das vacinas. E queremos sobretudo vislumbrar a normalidade, seja isso o que for depois de tamanhas alterações na nossa vida, sociedade e economia.

Esse objetivo, contudo, pode ser posto em causa pelo ritmo desigual de vacinação no globo. Os vírus não conhecem fronteiras nem nacionalidades. Largas faixas de continentes como a Ásia, África e América do Sul têm percentagens muito baixas de população imunizada e, sem vacinação, a covid-19 continuará a circular descontroladamente, com o risco que tal circulação representa a nível global. Segundo a Organização Mundial da Saúde, apenas 0,3% das vacinas produzidas até agora foram destinadas aos países de mais baixo rendimento, que continuam a ter populações de risco e profissionais de saúde desprotegidos.

Conhecidos que são os limites à produção, ainda assim países como os Estados Unidos já anunciaram que vão chegar aos adolescentes entre os 12 e os 15 anos antes do próximo ano letivo. Tal como a Alemanha pretende abranger esta faixa etária no final do verão. Convivemos bem com as necessidades dos outros, desde que as nossas estejam supridas.

Já sabemos que os valores da solidariedade e partilha de recursos nem sempre são entendidos nos países desenvolvidos, mas razões puramente pragmáticas e de gestão proativa de risco ditariam algum bom senso na cedência de meios ao COVAX, o mecanismo que visa garantir um acesso equitativo às vacinas. As mortes a que continuamos a assistir diariamente no Mundo inteiro são uma tragédia. E a nossa incapacidade de olhar além do umbigo, a confirmação de que a pandemia acentuou as desigualdades, mas não nos fez reavaliar a fragilidade e o verdadeiro valor da vida.

*Diretora

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