A sondagem Suffolk University/USA Today aponta que apenas 29% dos americanos desejam que Biden concorra a segundo mandato – um dado muito preocupante e que parece reforçar a ideia de que dificilmente, com 82 anos em 2024, o atual Presidente dos EUA terá condições de partir para um segundo mandato que só terminará quando já tiver 86.

Quase dois terços dos americanos (64%) consideram que Biden não deverá tentar ser Presidente entre 2024 e 2028. Entre os eleitores democratas, só 36% dizem preferir Biden para 2024 – 44% pretendem outro candidato.

E quanto a Trump? Até há uns meses, mais de dois terços dos americanos consideravam que não deveria tentar regressar à Casa Branca em 2024. Mas no último mês esse valor reduziu para 58%.

Ainda assim, continua a ser uma minoria, 36%, entre os eleitores americanos que desejam o regresso de Trump à Presidência.

O ano de todos os riscos

Até junho (possivelmente já em março), o Supremo Tribunal dos EUA tomará decisão definidora: vai ou não revogar a lei “Roe vs Wade”, que desde os anos 70 garante, no plano federal, o direito ao aborto nos EUA. Será que o avanço de legislação proibitiva em estados como o Texas vai contagiar a posição dos juízes do Supremo, numa altura em que a composição é de 6-3 para os conservadores?

Nos próximos meses avança também a “Truth Social” (Verdade Social), rede de comunicação da “Trumposfera”, gerida pelo congressista lusodescendente Devin Nunes, com o intuito de dar gás a uma possível candidatura presidencial de Donald Trump em 2024. E isso pode ser decisivo para percebermos o que vai acontecer neste arriscado ano político nos EUA.

A 16 de agosto ficaremos a saber se o “trumpismo” será mesmo arrasador no atual estado do Partido Republicano ou se poderá haver uma réstia de moderação: num dos estados mais pequenos dos EUA, o Wyoming, a congressista Liz Cheney – um dos membros republicanos que mais defrontaram Donald Trump enquanto Presidente e depois disso – luta pela nomeação republicana para tentar manter o lugar no Congresso e terá como “challenger” Harriet Hageman, uma sua antiga apoiante, advogada do Wyoming que se transformou numa “trumpista convicta”.

Se Harriet bater Liz nas primárias republicanas do Wyoming, poderemos esperar o pior do domínio trumpista para a estratégia republicana nas intercalares.

Entre setembro e outubro, nos meses anteriores às eleições, pelo menos 43 dos 51 estados norte-americanos vão abrir sistemas de “early voting” (voto antecipado”). Até agora, um grande “turnout” do voto antecipado tem favorecido os democratas – mas até isso pode estar em risco em 2022.

Intercalares com tendência republicana

O Presidente Biden começa 2022 com 43% de popularidade, bem abaixo dos 55 pontos que tinha até ao verão e antes da humilhação no Afeganistão.

Os republicanos têm aspirações fundadas de recuperar o controlo das duas câmaras do Congresso nas intercalares de novembro. E, caso isso aconteça, muitos antecipam um cenário de pesadelo para a segunda metade deste mandato presidencial de Joe Biden: paralisação legislativa, ameaça de “impeachment”, apelos a regresso de Trump à Casa Branca.

Ao contrário do que aconteceu nas “midterms” de 2018, em que os democratas conseguiram uma forte mobilização dos segmentos jovens e das mulheres (“pink wave”), numa junção de sentimento anti-Trump (então a meio do mandato) com a mensagem da esquerda progressista a dominar, desta vez o panorama para as intercalares surge em tons completamente diferentes: a “grande tenda” democrata está desunida, a área mais moderada, que deu a vitória nas presidenciais a Joe Biden em estados onde Trump parecia favorito, está desgastada com os adiamentos da agenda desta administração.

O mais provável é que 2022 marque um ressurgimento republicano – nalguns estados com forte cunho “trumpista”, noutros com algumas variações de registo.

Neste momento os democratas têm uma pequena vantagem (222-213) na câmara dos Representantes – e tendo em conta que a redefinição dos distritos eleitorais poderá beneficiar os republicanos, é provável que o controlo da câmara baixa mude mesmo de cor partidária. Já em relação ao Senado há mais dúvidas. Regista-se um empate 50-50, com vantagem virtual para os democratas pelo voto de desempate da presidente por inerência do Senado, a vice-presidente Kamala Harris, mas entre os 34 lugares em jogo, há mais republicanos a necessitar de disputar a reeleição, e portanto em risco de perder o seu posto, do que democratas.

É preciso explicar que tem sido a regra, nas eleições para o Congresso, que o partido do Presidente perca a corrida a meio do seu mandato.

Mas isso não é uma condenação para as esperanças de reeleição em 2024: Clinton foi reeleito em 1996 depois de grande derrota nas intercalares dois anos antes, o mesmo sucedeu com Obama em 2012 pós derrota de 2010. Nas últimas três décadas, só um Presidente americano, George W. Bush, conseguiu vencer umas eleições intercalares e não é provável que Joe Biden consiga seguir-lhe o exemplo.

O contexto favorece os republicanos

Historicamente, o partido que está na oposição tende a ter ganhos significativos nas intercalares para o Congresso. Desde 1870 realizaram-se 38 “midterms”: em 34 delas, o partido oposto ao do Presidente obteve arrecadou ao adversário um mínimo de cinco lugares, mas geralmente mais, numa média que se aproximou da dezena. É de esperar que 2022 não fuja a essa regra.

Outro indicador é o da abdicações: os congressistas que terminam mandato e optam por não concorrer à reeleição (os membros de Câmara dos Representantes precisam de renovar o seu mandato de dois em dois anos; os senadores têm mandatos de seis anos, pelo que num total de 100, a cada dois anos um terço deles ou sai ou tenta a reeleição).

Ora, para a corrida de novembro de 2022, neste momento é já certo que 19 democratas vão deixar o lugar, para apenas 11 republicanos. Para 2018 foi o contrário: 23 republicanos para 13 democratas.

2024 a formar-se num quadro atípico

Donald Trump, a menos que até lá seja impedido judicialmente de concorrer (caso haja uma conclusão nesse sentido das investigações à invasão ao Capitólio), é o nomeado quase certo dos republicanos, tamanho é o controlo que tem do partido e da própria dinâmica de escolhas de candidatos para as intercalares deste ano.

Doze dias depois das eleições para o Congresso, a 20 de novembro, Joe Biden completará 80 anos. Nunca um Presidente americano em funções, para mais apenas no primeiro ano do primeiro mandato, atingiu tão avançada idade estando na Casa Branca.

E isso aumenta interrogações sobre o que se passará nas eleições de 2024: será que Joe Biden vai mesmo ser o candidato dos democratas?

Podemos, por isso, estar perante a ironia de, em 2024, em vez de ser mais óbvia a reeleição do Presidente em funções ser mais provável assistir ao regresso do rival anterior, não se sabendo bem quem, do lado do partido na Casa Branca, possa tentar travar esse retrocesso.

Atenção a este dado: mesmo continuando a ser minoritário no todo nacional, Trump está muito bem lançado para ser o nomeado presidencial republicano em 2024: 50% dos eleitores republicanos dizem que é ele que pretendem, 35% preferiam outro, 15% ainda não sabem. O que é que isto dá, neste momento, para a eleição geral? Um empate: 40% Biden, 40% Trump, 20% de indecisos.

Ou seja, tudo em aberto e uma enorme margem para que 2024 dê para o torto no que se refere a uma garantia de prevalência da democracia, que tão em risco esteve nos anos Trump e no processo pós-eleitoral, nos EUA.

A América nunca para de nos surpreender.

Por Germano Almeida, SIC Notícias.

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