“A tourada das touradas

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António Araújo

O verdadeiro e autêntico ocorreu na Paris de França, inícios de 1959. E meteu um motorista, como sempre, que se fazia passar por polícia e recrutava as meninas para as festas. Entre os presuntos implicados, nem mais nem menos do que o presidente da Assembleia Nacional, André Le Troquer, um homem de 74 anos que perdera um braço nas trincheiras da guerra de 14-18, antigo deputado socialista e nome grande da Resistência, figura próxima do general De Gaulle, com quem desceu os Campos Elísios no glorioso Dia da Libertação. As raparigas, essas, algumas das quais menores, eram recrutadas entre jovens aspirantes a artistas e bailarinas, razão pela qual o escândalo ficou conhecido como dos ballets roses, os originais, de Paris de França. As orgias decorriam, imagine-se, na própria sede da Assembleia, o Palais-Bourbon, no edifício da Ópera e na residência oficial do presidente do parlamento, o Pavillon du Butard. No final, condenaram uma dúzia de idosos lúbricos, gente da alta, entre os quais Le Troquer, ainda que este, atendendo à provecta idade e aos muitos serviços prestados à pátria, tenha levado pena suspensa. Ostracizado da vida política, abriu um restaurante nas faldas de Montmartre, rue des Martyrs, e morreu pouco depois, como merecia.

Há em França um vil costume de perdoar esta gente ou de relativizar as suas barbáries sexuais: não há muito, Jack Lang, ex-ministro da Cultura, teve o desplante de retratar DSK como um homem “sensual” e “apaixonado”, na vã tentativa de justificar os seus inconcebíveis actos, que incluíram a violação de uma empregada de limpezas de um hotel de Nova Iorque. Quanto aos ballets roses, veio o filósofo Michel Leiris afirmar, indignado, que os mesmos não deveriam ter causado escândalo nem custado a carreira pública a André Le Troquer, pois este mais não fez do que envolver-se “com ratinhas perfeitamente voluntárias” (!), as quais, ademais, “retiraram ganhos financeiros” do comércio carnal com os porcos cavalheiros parisienses.

Que um filósofo com a estatura de Michel Leiris tenha dito uma abjecção deste tamanho foi algo que incomodou deveras outro pensador, também famoso e francês, Michel Onfray, o qual, num livro acabado de sair entre nós (Cosmos. Uma Ontologia Materialista, Edições 70), faz um paralelo entre aquela boçalidade e a defesa que Leiris fez das touradas em Miroir de la Tauromachie, um célebre ensaio de 1938.

Ao contrário do que se possa pensar, Michel Onfray não é um acérrimo animalista, longe disso. Tem, por exemplo, um curioso argumento para defender o consumo (moderado) de carne, contra as ideias de veganos e vegetarianos: se deixássemos de comer animais domésticos, estes, aos biliões, passariam ao estado selvagem, criando então um problema de sobrevivência para os humanos e para o planeta. Já quanto às corridas de touros, Onfray é um crítico radical e sem tréguas. Muitas das teses que alinha são discutíveis, como a que sustenta que as touradas só existem em países católicos e que elas são, por isso, uma emanação do cristianismo, religião que teria produzido “uma das maiores civilizações sadomasoquistas ao convidar à imitação do suplício de Cristo para merecer a salvação” (os países protestantes também não são cristãos?, ocorre perguntar ao filósofo). Ateu militante e fogoso, Onfray considera também que “há uma relação entre a paixão pela tauromaquia e a sexualidade dos aficionados” e que a “virilidade ostentatória”, exibida pelos toureiros nas suas lides, dissimula uma “virilidade debilitada”, pouco segura de si.

São argumentos que pouco colhem, como não colhe a ideia, defendida pelos inimigos das touradas, de que elas instrumentalizam abusivamente um animal, colocando-o na arena para mero desfrute dos aficionados. É que, em direitas contas, estamos sempre a usar e a instrumentalizar os animais que nos rodeiam, seja quando lhes comemos a carne, seja quando os aprisionamos em nossas casas para fins recreativos, seja até quando os decidimos libertar, devolvendo-os à natureza, sem lhes perguntarmos que opinião têm de tudo isso. O ponto não é esse, e nada tem que ver com o uso abusivo de um animal num espectáculo. Tem que ver com outra coisa, essa sim decisiva: por muitas voltas que dêem os defensores das corridas, por muitos argumentos que tentem esgrimir, é impossível negar que as touradas provocam sempre sofrimento num animal, que lhe infligem dor escusada e cortante: no touro, esvaído em sangue, o dorso é trespassado por bandarilhas várias, com um ferro de dupla lâmina, de oito centímetros, e com um arpão de quatro centímetros de comprimento e dois centímetros de largura. Perante isto, perante as lesões horríveis no corpo de um animal, outro problema se suscita, que já não tem que ver com o bicho em si, mas com os espectadores nas bancadas: pagar bilhete para ver um mamífero a ser picado com baionetas, assistir à teatralização do sofrimento de um ser vivo e ao espectáculo da sua dor não é, digamos, coisa muito digna de quem se diz humano (e, às vezes, cristão).

Argumenta-se com a “tradição”, mas há tradições e tradições, umas melhores do que outras, e tradição que não saiba adaptar-se às coordenadas do seu tempo estará fatalmente condenada a desaparecer para sempre (apesar de uma recuperação nos anos mais recentes, derivada ao turismo, as touradas perderam 42% do seu público entre 2009 e 2019). Diz-se, também, que os aficionados amam mais os animais do que os urbano-depressivos que têm cãezinhos, gatinhos e outros bichinhos nos seus apartamentos, o que talvez seja verdade, mas ficará sempre por demonstrar (até porque amar um animal ao ponto de lhe espetar bandarilhas de ferro no lombo é uma bem estranha forma de amor).

De modos que estamos nisto: opiniões extremadas de uma parte e doutra, argumentos gritados a favor ou contra, uma algazarra infrene, no meio da qual o touro é, ou parece ser, o único animal sensato em presença. Agora, sempre que há corrida em cartaz, temos não uma, mas duas touradas: dentro da praça, os aficionados, agarrados com unhas e dentes à sua “tradição”; lá fora, animalistas furiosos, escamados com a polícia, eriçados contra mundum, quase parecendo bichos.

O facto de a corrida “à portuguesa” ser diferente da espanhola, sem picadores nem morte na arena, mas com forcados que enfrentam o touro de igual para igual, sem lhe causar sofrimento, é a prova provada de que as tradições podem mudar, adaptar-se, e que existem formas diversas de lidar com os touros, dentro e fora da praça. No passado, tivemos touros de morte, abolimos essa prática; agora, porque não dar novo passo em frente, rumo à paz e à concórdia? Há um par de anos, o deputado socialista Pedro Delgado Alves disse que o seu partido estava a estudar as “touradas sem sofrimento”, como se praticam na Califórnia, em que se utilizam bandarilhas de velcro, que não magoam o animal nem lhe causam qualquer dor (e que, por isso, não causam comoção nem polémica). Um aficionado como Manuel Alegre considerou a ideia “interessante” e até a associação PróToiro disse que ela “poderia ser uma solução” para o imbróglio tauromáquico em que vivemos até hoje.

Nada se fez, creio eu. E, claro, continua a alegre tourada das touradas, ciclicamente encenada, seja a propósito de questões fiscais e da taxa do IVA, seja por causa das transmissões televisivas da festa, seja em redor de Barrancos e doutras terras rijíssimas. Em Espanha, as touradas estão proibidas nas Canárias e na Catalunha; em França, deixaram de fazer parte da lista do património cultural imaterial; em Portugal, estão proscritas em Viana do Castelo, Braga, Cascais, Sinta e Faro. Quanto a sondagens, há-as para todos os gostos: numa, de 2011, só 11% dos inquiridos eram contra as touradas; noutra, de 2018, 89% dos lisboetas diziam nunca ter ido ao Campo Pequeno e 70% não concordavam que as corridas fossem promovidas (num outro estudo, de 2007, 56% dos inquiridos de todo o país eram a favor da proibição legal das touradas).

Em 2018, quando se falou das touradas sem sofrimento e sem sangue, um deputado do PS, Luís Testa, afirmou que “o velcro nunca será aceite pelos que defendem as touradas nem pelos que querem a sua abolição”. Provavelmente, tinha razão. É que, no fundo, no fundo – e como acontece amiúde nestas lutas “fracturantes” -, nenhuma das partes em contenda está verdadeiramente interessada em resolver a disputa através de soluções de compromisso, feitas de bom senso e consenso. Os aficionados não se dispõem a ceder um milímetro, e por isso falam em “tradição” e “cultura” e na “defesa do mundo rural”, sem perceberem – melhor, sem quererem perceber – que a proposta do velcro e similares não se destinam a acabar com a festa brava, mas a salvá-la. Do outro lado da barricada, os animalistas-abolicionistas não desejam touradas mais amigas dos animais, mais pacíficas para todos, pois o seu objectivo é tão-só, e apenas, marcar pontos políticos nas lutas do activismo, versão contemporânea das guerrilhas urbanas de outrora. O compromisso não interessa a ninguém, já que cada qual fala apenas e somente para a sua tribo e maralha; se acaso houvesse um acordo, os líderes desta polémica perderiam os seus empregos, tendo de arranjar novas “causas” para se projectarem nos media e nas redes sociais.

É triste, muito triste, que nem numa questão como esta, tão simples e tão taurina, consigamos encontrar soluções que, não agradando a ninguém, sejam do interesse de todos: dos que querem continuar a ver touradas, nas praças ou na TV; dos que desprezam o sangue derramado na arena e querem acabar com ele; e, acima de tudo, dos touros, coitados, que não querem continuar a ser bandarilhados com tanto sofrimento e dor (e que, por certo, contemplam estas querelas humanas como bois a ver palácios). Temos questões gravíssimas diante de nós: a catástrofe climática, a pobreza induzida pela covid, uma inflação galopante, iminente, decorrente da subida em flecha dos preços de muitos bens, tornados escassos pelas rupturas nos canais de distribuição aquando da pandemia (o aço, o alumínio e o cobre subiram 35% e o preço da energia cresce, cresce). Em face de problemas como estes, e outros, o facto de sermos incapazes de solucionar uma questão comezinha, de velcros e bandarilhas, é algo que faz pensar. Depois, não se queixem.

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