“A parábola dos cegos

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António Araújo

Viram meus olhos os que não podem ver, cegos à beira do abismo. Nápoles, Museu Capodimonte, uma grande tela de linho, mais de metro e meio de comprido pintado a têmpera, técnica que Bruegel raramente usou, e que terá aprendido com a sua sogra, Mayke Verhulst, uma extraordinária pintora e gravurista neerlandesa do século XVI, sobre a qual hoje pouco se sabe, quase nada. De Parabel der Blinden / A Parábola dos Cegos, assim se chama a obra-prima, foi executada pelo pintor no final da vida, em 1568, um ano antes de morrer. Talvez por isso, a tela é amarga e catastrófica, uma ilustração metafórica do caminho que levam os cegos que se deixa guiar por outros cegos, como na parábola com que Cristo fustigou os fariseus: “Deixai-os! São cegos que guiam outros cegos. E quando um cego conduz outro cego cairão ambos na mesma vala”, diz-nos Mateus 15:14 (num sentido próximo, Lucas 6:39; e a Epístola aos Romanos, 2:19). Aliás, dissera-se já antes, no Velho Testamento: “Aqueles que guiam este povo são os mesmos que o desorientam, e aqueles que são guiados deixam-se seduzir e ser guiados ao erro” (Isaías, 9:16).

Não era a primeira vez que Pieter Bruegel, o Velho, se deixava seduzir pelo poder da parábola da cegueira. Nove anos antes, em 1559, num quadro intitulado Provérbios Neerlandeses, figurara três cegos em campo aberto, caminhando rumo ao desastre certo. Agora, porém, a alegoria bíblica ganhava outro significado. Em 1563, Bruegel casara-se com a filha do seu mestre e estabelecera-se em Bruxelas; quatro anos depois, o governador dos Países Baixos, Fernando Álvarez de Toledo, 3.º duque de Alba, instituiu o famigerado “Conselho Sangrento”, para impor pela força a fé católica, perseguindo os hereges protestantes. Não por acaso, uma outra tela que Bruegel pintou na altura, A Pega na Forca, mostra-nos uma cena campestre, exibindo em primeiro plano o patíbulo usado para pendurar os condenados. E, em A Parábola dos Cegos, vemos ao fundo a Igreja de Santa Ana, na vila de Sint-Anna-Pede, em Ittterbeek, no coração do Brabante flamengo. A inclusão do templo de Santa Ana no centro do quadro, em lugar de destaque, tem suscitado inúmeras interpretações: para uns, era uma crítica à Igreja Católica, dadas as inclinações calvinistas do pintor; para outros, nada há de especial na figuração da Igreja de Santa Ana, tudo não passando de um cenário bucólico igual a tantos que surgem na obra de Bruegel; outros ainda sustentam existir um moralismo implícito no quadro, nos termos do qual os dois cegos da frente irão cair ao chão e perder-se, ao passo que os outros quatro da retaguarda, por se encontrarem atrás da igreja, acabarão por salvar-se; e até há quem diga, enfim, que o quadro representa uma denúncia da nossa indiferença perante a sorte das pessoas com deficiência.

Talvez seja elaborar em excesso. Desde logo, porque várias gravuras neerlandesas da época, uma das quais atribuída a Bosch, retratam cegos a guiar outros cegos, a par de outros temas conexos, como o da “nave de loucos”. Bruegel ter-se-á limitado, assim, a pintar um tópico em voga e na moda, colocando-o num ambiente rural que conhecia bem e, quando muito, deixando uma mensagem à clef a censurar os excessos dos dominadores espanhóis e da Contra-Reforma tridentina.

A genialidade não está, pois, na escolha do tema, mas na composição da pintura, no seu dinamismo extremo. Em vez de colocar as figuras na horizontal, no mesmo plano dos nossos olhos, Bruegel representou-as obliquamente, na diagonal. Os cegos não marcham de forma linear, ordenada e disciplinada, antes parecem uma procissão caótica, um cortejo descendente, em queda livre. Repare-se ainda que, sob uma unidade aparente, há dois núcleos bem distintos, até afastados entre si: o primeiro grupo, que vai à frente, é composto por dois cegos já definitivamente perdidos; o segundo, mais distante, é formado por quatro homens que ainda não caíram por terra, ou seja, que ainda são passíveis de salvação. A separação dos grupos é adensada por outro toque subtil: os cegos da frente situam-se abaixo da linha dos nossos olhos, ao passo que os restantes se encontram acima desse plano, com os rostos virados para cima, farejando o ar. O uso da diagonal transmite-nos ainda a noção de que o terreno que os cegos pisam é íngreme, resvaladiço, propiciador da sua queda (ou, se quisermos, da sua perda), o que é acentuado pelo pormenor do lado inferior esquerdo, que dá a ideia de que tudo se passa à beira de um penhasco ou de uma ribanceira perigosa. É também a diagonal que, sublinhando o caminhar oblíquo dos cegos, dá ritmo e movimento a todo o quadro. Através de um extraordinário uso da perspectiva, Bruegel coloca-nos, e ao nosso olhar, no lado inferior direito da tela, no fulcro da cena: o cego da frente já caiu, estatelando-se desamparado no chão; o seguinte está também prestes a desabar, e vemo-lo no preciso instante da queda, como num instantâneo fotográfico; nos quatro que seguem atrás – mais uma nota genial de Bruegel -, a posição é cada vez mais instável à medida que se aproximam do fulcro da cena, a da queda do primeiro cego. Nos rostos dos cegos, as emoções são cada vez mais carregadas à medida que se encaminham para o desastre e, nos que vão atrás, a expressão da face é plácida e tranquila, indiferente ao perigo – outro atestado da sua cegueira. Os infortunados caminham da esquerda para a direita, no sentido da leitura, e o movimento da cena é quase cinematográfico ou, se quisermos, muito parecido ao das histórias aos quadradinhos. A Parábola dos Cegos pode ser uma tela trágica e amarga, com um sentido teológico profundo (aos olhos de Deus, somos todos cegos), mas é também um quadro cómico, prenhe de ironia e humor.

Especulou-se sobre as vestes dos infelizes, dizendo alguns que, pelo modo de trajar, aqueles cegos não poderiam ser mendigos, ponto ainda hoje controverso. Bruegel figura-os com precisão, com os rostos voltados para o ar, como é típico dos invisuais, que têm de se orientar pelo olfacto e pela audição. Outro pormenor assombroso: como foi notado em 1889 por Charcot, lenda da medicina francesa, os cegos de Bruegel apresentam patologias diferentes: um teve os olhos retirados das órbitas (há quem diga que por castigo ou no decurso de uma briga); outro padece de leucoma da córnea; outro, de atrofia do globo ocular; o quinto é fotofóbico e não tem percepção da luz; o último sofre de pênfigo ou penfigoide bolhoso. Num quadro do século XVI, encontramos um manual completo de oftalmologia. Espantoso.

Como é espantoso pensarmos que o tema do cego que guia outro cego, constante dos Evangelhos, surge em livros religiosos bem mais antigos, como os Upanishads, escritos muitos séculos antes de Cristo (“Permanecendo no meio da ignorância, pensando-se sábios e instruídos, os tolos vão sem rumo aqui e acolá, como cegos guiados por cegos”), ou em textos budistas como o Cânone Páli, ou Tipitaka, que fala “de uma fila de cegos, cada um apoiando-se naquele que está em frente”. No mundo latino, Horácio referiu-se ao Caecus caeco dux, o “chefe cego dos cegos” e, mais recentemente, o tema foi retomado por Charles Baudelaire, por Maurice Maeterlinck, pelo poeta William Carlos Williams e, como é óbvio, no Ensaio sobre a Cegueira, de José Saramago.

Nas últimas semanas, a vida política portuguesa tem feito lembrar com tristeza o quadro de Bruegel e a parábola dos cegos. Apesar dos insistentes avisos do Presidente da República, BE, PCP e PS não foram capazes de se entender nas negociações do Orçamento, estamparam-se ao comprido perante o país inteiro e agora trocam queixinhas e acusações mútuas, como os meninos travessos quando fazem grossa asneira. A história aliás é fértil em episódios de cegueira como aquela, exemplos de indivíduos ou de organizações que, por razões e pressões várias, se deixam conduzir estupidamente para resultados contrários aos seus interesses (leia-se As Leis Fundamentais da Estupidez Humana, de Carlo Cipolla). Foi a cegueira dos “sonâmbulos” de 1914 que levou o mundo à Primeira Grande Guerra e, na nossa história democrática, já tivemos a moção de censura do PRD, em 1987, o hara-kiri de António José Seguro em 2014 e, em 2020, a auto-imolação do Livre na praça pública, em prantos de Katar Moreira.

Há dias, pela mão de Chicão, o CDS-PP optou por suicidar-se alegremente à vista de todos e o PSD de Rui Rio, se não lhe deitam a mão, seguirá caminho idêntico. De Rio já nada nos espanta, pois sabemo-lo limitadito, na sagacidade e no mundo, mas custa que à manobra canhestra surja associada gente retumbante e brilhante, como David Justino, Paulo Mota Pinto ou Joaquim Sarmento. Na verdade, é bem peregrina a ideia de adiar as eleições directas no partido, havendo nessa proposta uma enorme e tremenda cegueira. Nas vésperas das eleições, o interesse de Rio, digo eu, deveria ser ir a votos internos, mostrar força e raça perante os seus militantes, reforçar-se e legitimar-se para o combate vindouro, fazer esquecer a oposição que não fez durante os quatro anos do mandato que ora termina, a equipa que não formou (quem são os seus ministros-sombra, os rostos sectoriais?), os apoios que afugentou (quem apareceu nestas semanas a seu lado?), a hostilização aos juízes e aos jornalistas (um Orbán lusitano?), as ideias que não teve, as propostas que calou (lembram-se de alguma?). Rio poderia ter usado as directas para disfarçar tudo isso, a miséria de uma liderança sempre ausente e raivosa, mas, ao invés, propôs-se congelar o sufrágio para calendas mais favoráveis, na cega suposição de que poderia avançar para legislativas sem passar pelo crivo dos militantes do seu partido, por si tratados como os “carneiros votantes” de que falava Max Weber. Esqueceu-se de um dado singelo, mas decisivo: em democracia, líder que tem medo de eleições ou não é democrata, ou não é líder. Será um cobarde, talvez, ou coisa pior ainda: um manobrador, um golpista, um trapaceiro que pretende ganhar na secretaria através de expedientes burocráticos e ardis regulamentares. À força de querer ser amigo de Ventura, Rui Rio anda a copiar-lhe os tiques, as manhas, as aldrabices de feira, o populismo rasteiro, e até por isso convém lembrar-lhe que o PSD ainda não é o Chega, alto lá. Não sou e nunca fui militante do PSD (e de partido nenhum), mas, perante um espectáculo destes, uma ignomínia tamanha, atrevo o conselho aos laranjas: Rio, rua.

 

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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