120 quartos…

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António Araújo

… é muito, é pouco? Depende do sítio onde for. Se estivermos a falar de um local desafogado, espaçoso, com acessos amplos, um hotel de 120 quartos tem um tamanho mais do que razoável.

Vejam, porém, a histórica Travessa das Mónicas, em Lisboa, onde morou Sophia e nasceu Marcello Caetano, onde fica o convento e a antiga prisão feminina, cuja hóspede mais conhecida no nosso tempo foi Maria Branca dos Santos, Dona Branca, que do povo foi banqueira. A Travessa é estreita e íngreme, de sentido único, como estreitas e íngremes são as artérias adjacentes, a Rua de São Vicente e a Calçada da Graça, onde só dá para passar um carro, não mais. Construir aí um hotel de 120 habitações, com tudo o que isso implica de movimento de hóspedes, de vaivém de funcionários, de roda-viva de fornecedores e serviços de apoio, além de um crime, é deveras estúpido. É que se os estrangeiros vêm para cá espairecer em hotéis de luxo, na busca de pitoresco e sossego, fornecer-lhes confusão marroquina e ruído napolitano não é, digo eu, a melhor receita.

Eis um ciclo bem vicioso: ao perseguir vorazmente uma coisa – o “típico”, o “autêntico”, o “vivencial” -, o turismo de massas acaba por destruí-la; e, uma vez saciado, parte sempre em busca de novas paragens para exercer a sua gula devastadora. Caberia às autoridades esclarecidas, se as houvesse, quebrar esta espiral destrutiva, esta fatal pescadinha de rabo na boca. Mas não: num espaço inscrito na Carta Municipal do Património, numa zona frágil e protegida, iniciou-se a construção de um hotel de 128 quartos, com 160 lugares de estacionamento, em violação clara de várias disposições do PDM, segundo informa o diligente Fórum Cidadania Lx. E uma decisão tão magna, pasme-se, foi tomada por despacho de um só vereador, não tendo ido sequer a reunião de câmara. Tudo muito estranho.

A poucos metros de distância, no Largo da Graça, no antigo quartel da GNR, projecta-se outro bisonte volumoso, com mais 120 quartos, o que significa que, de um dia para outro, num perímetro escasso irão nascer 240 habitações. Exemplos destes sucedem-se por toda a toda a Lisboa antiga, de onde – e bem – se retiram os automóveis particulares para – e mal – encher as ruas com a praga dos tuk tuks (segundo uma estimativa de 2019, existiam 600 a 700 em Lisboa…). Quer dizer, limitam-se os veículos de transporte e serviço de quem vive ou trabalha na cidade para, em seu lugar, permitir a circulação desenfreada de viaturas de recreio que, para mais, só servem para desfrute e gozo de uma família ou de um pequeno grupo. É isto sensato, razoável?

Desde há décadas, sucessivas vereações de várias cores políticas têm permitido que Lisboa esteja a ser golpeada na sua essência, naquilo que, ao cabo e ao resto, a torna uma cidade digna de se ver – e de nela morar. Tudo começa por cima: quem se propõe à presidência da edilidade fá-lo não por amor a Lisboa, mas sempre a pensar noutros e mais altos voos. Antes de se candidatarem, que provas deram Medina & Moedas de paixão alfacinha, de currículo e visão para a cidade, de conhecimento dos seus problemas? Encarada a presidência camarária como mero trampolim político, não admira, pois, que todo o governo da cidade acabe por se ressentir, como ainda agora vimos na trapalhada dos festejos do Sporting.

Os resultados estão à vista e quem duvide faça o exercício: ponha-se a caminhar da Rotunda até ao Campo Grande, atravesse a Fontes Pereira de Melo, passe pelo atroz Saldanha, embrenhe-se pela Avenida da República. Veja, mas veja com olhos de ver, o cortejo ininterrupto de aberrações construtivas, os medonhos caixotes de betão e aço que fazem com que aquelas nobres avenidas pareçam artérias de uma capital terceiro-mundista. Nas Avenidas Novas, já pouco se aproveita: na Duque de Ávila, de uma ponta à outra, da Gulbenkian ao Arco do Cego, restam três, quatro prédios antigos, à escala humana, e tudo o resto são coisas novas, recentíssimas, de traça horrenda, sem imaginação nem rasgo. Quem preferir, um exercício mental: das centenas de edifícios feitos nos últimos anos, quantos e quais o leitor recorda pela elegância e pela beleza, pela qualidade da arquitectura? E de quantos se lembra, ao invés, por agredirem paisagem, bom gosto e bom senso?

O fenómeno não é de agora, mas tem assumido nos últimos tempos novas e cada vez mais graves proporções. E a questão não é saber se Lisboa está hoje “pior” ou “melhor” do que há 20 ou 15 anos, pois os progressos são óbvios, iniludíveis (por ex., nos espaços verdes, nas esplanadas e novas praças).

Desengane-se, pois, quem julgue que os que defendem Lisboa são seres arcaicos ou retrógrados, avessos a qualquer mudança, até porque não devemos ter nostalgia de uma cidade que nunca existiu: a Lisboa de outrora, importa dizê-lo, era suja e porca, mais desigual ainda, cheia de miséria e barracas, com centenas de prédios degradados e o património a ruir aos pedaços.

De resto, há exemplos contemporâneos admiráveis, logo adoptados e acarinhados pelos cidadãos, como o MAAT, junto ao Tejo. Perto dele, porém, o indizível Museu dos Coches, monstro modernista de betão cinzento que talvez funcionasse num outro espaço de implantação, no meio de um grande relvado onde pudesse respirar, mas que ali, entalado até à borda do passeio, é um desastre comprovado pelo facto de nem os lisboetas nem os turistas terem o mínimo apreço ou relação afectiva com tal caixote. Quantas vezes é ele mostrado pela sua estética nos guias da cidade ou citado como modelo de obra arquitectónica? E o facto de ser da autoria de um brasileiro famoso só mostra outra realidade nua e crua: salvo honrosas excepções, a qualidade da arquitectura feita em Lisboa é medíocre, para dizer o mínimo, e a generalidade dos arquitectos, incluindo os mais credenciados, prostituem o seu traço e a sua assinatura em favor de promotores imobiliários somente interessados no lucro e, logo, na desmesura das volumetrias. Para não falar do “mono do Rato” ou das “Torres da Portugália”, a falta de imaginação da actual arquitectura vê-se, por exemplo, no facto de todos, mas todos, os novos edifícios terem o mesmo tipo de mansardas em zinco, ao gosto francês, de todo alheias à tradição visual lisboeta.

E a Baixa, que tem para mostrar? Naquela que é, segundo a frase pindérica, a “sala de visitas” da cidade, proliferam snack-bars e fast food em sucessão contínua por toda a Rua Augusta, até ao Rossio (desafio alguém a indicar um restaurante dessa rua onde se coma bem ou que tenha ambiente aprazível). Nas 17 ruas que constituem a grelha pombalina central da Baixa, acotovelam-se 103 lojas de bugigangas para turistas, contas feitas em 2018 pela jornalista Bárbara Reis, que, no Público do dia 15, voltou ao tema para perguntar, e muito bem, se não estaremos perante uma “nova Odemira” no coração de Lisboa, pois é no mínimo estranho que os comerciantes portugueses não consigam sobreviver aí, mas lojistas vindos da Índia, do Paquistão, do Bangladesh sejam capazes de suportar rendas e custos de uma zona tão central (ou do Calhariz, outro local caro). Além da oferta de droga na Rua Augusta, a céu aberto e a todas as horas, o centro da capital divide-se, assim, entre comércio de souvenirs e megastores de pronto-a-vestir, iguaizinhas em todas as cidades do mundo, enquanto as lojas tradicionais agonizam e definham, sem que a CML perceba, de uma vez por todas, que o comércio é um dos traços identitários mais poderosos e apelativos de uma cidade e, como tal, deveria ser acarinhado como parte do património. Do início da pandemia até finais do ano passado, fecharam, em poucos meses, 111 lojas nas quatro principais ruas da Baixa; que planos há para as recuperar?

A covid-19 revelou o risco de apostarmos na monocultura do turismo, mas o frenesi pós-pandémico que por aí já se vê mostra que não aprendemos de todo as lições de um passado recente. Em breve, voltarão os barcos de cruzeiros para poluir o Tejo e tapar a vista do miradouro das Portas do Sol (a escolha da localização do terminal de cruzeiros deveria figurar nas antologias da asneira). E um dia, quando o turismo de qualidade fugir de Lisboa, tal qual como fugiu da maioria das praias do Algarve, os lisboetas ficarão finalmente… a ver navios. É isso que queremos?

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia

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