Trabalho de físico premiado une a ciência da Suíça e do Brasil

Um dos nomes de maior destaque entre os cientistas que realizam pesquisas sobre alguns dos temas mais desafiadores da Física atual é também um importante elo entre a ciência no Brasil e na Suíça. Aos 63 anos, o físico Hans Jürgen Hermmann divide seu tempo entre a Politécnica de Zurique (ETHZ), onde é professor no Instituto de Materiais de Construção, e a Universidade Federal do Ceará (UFC), onde é professor correspondente no Departamento de Física.
Desde 2006, HermmannLink externo passa cerca de seis meses do ano em Fortaleza e os outros seis meses em Zurique. Na universidade suíça, atua em pesquisas sobre temas diversos que vão desde a formação de deltas de rios e da areia movediça até o estudo sobre redes complexas ou sobre as falhas existentes em compostos fibrosos e poliméricos.
“Eu venho da Física Estatística, então estou muito interessado em problemas dos sistemas heterogêneos e dos sistemas fluidos complexos quânticos, e também em problemas de mecânica morfogênica. Na ETHZ, estou oficialmente na Engenharia Mecânica e Engenharia Civil, então eu tenho também uma atividade mais mecânica para estudar a formação morfogênica de estruturas de membrana. Essas são as minhas áreas de atuação”, diz o físico à swissinfo.ch.
Em Zurique, Hermmann também desenvolve seu outro lado profissional: o de editor de publicações científicas. Membro do Conselho Editorial da Comissão de Pesquisa da ETHZ, ele também é editor do “Journal of Modern Physics C” e da revista “Granular Matter”. Além disso, o nome do físico aparece como coeditor em 13 livros científicos e coautor de cerca de 400 publicações: “É importante tornar amplo o conhecimento sobre os trabalhos e pesquisas em andamento”, diz.
No Ceará, Hermmann ultimamente tem estudado a formação de dunas e esferas apolônias (Apollonian Packings). As pesquisas que comanda na UFC tratam ainda de temas como ondas de densidade, fragmentação, estratificação, segregação, sedimentação, compactificação e formação de pilhas de areia, entre outros.
Apesar da crise política e econômica que afeta diretamente o meio científico brasileiro com cortes de bolsas, programas e verbas, Hermmann afirma acreditar na ciência do país: “Eu acho que a ciência no Brasil está bem. A ciência não é só dinheiro. Há muitos problemas econômicos e financeiros agora, mas acho que, no geral, o desenvolvimento da ciência no Brasil tem sido muito bom. Na Europa há mais tradição, tem pessoas famosas trabalhando, é outro nível. Mas, eu acho que no Brasil as pessoas realizam ciência e pesquisas muito boas”.
A relação do físico com o Brasil tem mais de três décadas, e tudo começou com uma proposta feita por um importante nome da Física brasileira: “Eu viajei pela primeira vez ao Brasil em 1985, convidado ao Rio de Janeiro pelo professor Constantino Tsallis. Aí gostei, voltei muitas vezes, depois fiquei um ano no ensino técnico com uma bolsa da Fundação Guggenheim. Agora, já sou um pouquinho brasileiro”, diz.
A atuação ao lado de Tsallis e os outros trabalhos realizados no Brasil levaram Hans Jürgen Hermmann a ser convidado para integrar a Academia Brasileira de Ciências. Modesto, o físico prefere creditar o convite a uma deferência dos brasileiros ao seu interesse pelo país: “Já faz muito tempo que entrei na Academia, era jovem quando fui nomeado, já sou um membro muito antigo”, brinca.
Cidadão do mundo
Hermmann não exagera quando diz ser um pouquinho brasileiro, pois ele é o que pode se chamar de cidadão do mundo. Filho de pai alemão e mãe cubana, o cientista nasceu em Havana, mas passou a infância e parte da juventude em Bogotá, na Colômbia. Realizou seus estudos em Göttingen e Colônia, na Alemanha, onde concluiu doutorado em Física Teórica.
Em seguida, tornou-se membro da Centro Nacional de Pesquisa Cientifica (CNRS, na sigla em francês) do Serviço de Física Teórica da Universidade de Paris-Saclay, na França, e recebeu os prêmios Max-Planck em 2002 e Gentner-Kastler em 2004.
Como professor, Hermman passou pela tradicional Escola Superior de Física e de Química Industriais (ESPCI, na sigla em francês) de Paris e pela Universidade de Stuttgart, na Alemanha, antes de finalmente fincar âncoras na Politécnica de Zurique e na Universidade Federal do Ceará.
Com a mente irrequieta, típica dos bons cientistas, o físico já projeta as pesquisas e estudos que ainda pretende realizar na Suíça e no Brasil: “Uma questão interessante a se estudar no futuro é o que se chama matéria ativa, a matéria viva. Descrever o material que vive, que tem vida, como se fosse um material de construção. Examinar, por exemplo, as formas biológicas para se construir tecidos. Isso está começando a evoluir, é uma área que eu gostaria de desenvolver mais. É um sonho”, diz.

Fonte:swissinfo




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