“QUE SEJAM FELIZES, OS MIÚDOS DO RONALDO!”, POR HÁLIA SANTOS

Ando aqui às voltas, sem saber o que pensar, e o que mais me irrita é que o assunto nem parece que mereça assim tanto pensamento…

De que falas, amiga?

Dos gémeos do Ronaldo. Na verdade, dos três filhos do Ronaldo.

O que te preocupa? O uso das fotos das crianças?

Não, nem vou por aí. Penso muito mais na questão das barrigas de aluguer e dos bancos de esperma. Na verdade, a minha questão é muito simples: gerar-se uma criança sabendo-se à partida que não vai ter mãe ou que não vai ter pai.

Recorda-me lá… Tu própria, antes de seres mãe, ponderaste o assunto, não foi? Se bem me lembro, fizeste-o na perspetiva de que, quem não tem um companheiro que queira fazer parte desse desafio único que podemos ter na vida, também tenha o direito de o concretizar sozinho ou sozinha. Ou em família alargada.

Foi. E desisti porque achei que criança alguma deveria ser privada de pai à nascença. Já não basta a vida que os priva de pais, mães, avôs, avós e por aí fora. Ser um progenitor a tomar essa decisão, à partida, é um assunto muito sério. O desejo da maternidade e da paternidade não pode ser concretizado a todo o custo.

Certo, mas também sabes bem que muitas famílias vivem quase como clãs e conseguem proporcionar a uma criança tudo o que ela necessita. Estou a falar de Amor, Carinho, Atenção… Não estou sequer a falar de dinheiro.

Sei muito bem disso. E não tenho qualquer dúvida sobre a capacidade da maioria das famílias de o fazerem. Como o fazem quando desaparece um pai ou uma mãe de uma criança ou de um jovem. Como também me parece que essas crianças de barriga de aluguer ou de banco de esperma, por serem tão desejadas, serão certamente crianças felizes. Mas imagino-me na pele delas. O que dirão ao Cristianinho quando ele pergunta quem é a mãe? É que a mãe não morreu, nem desapareceu. Existe, algures…

Como existem os pais e as mães das crianças adotadas. A situação é idêntica.

É e não é. É idêntico porque em qualquer dos casos as crianças imaginam que as mães que os geraram andam por aí. Mas deixa de ser idêntico porque as crianças adotadas sabem que, por alguma razão, os progenitores não puderam ou não quiseram ficar com elas. No caso dos bebés criados em laboratório por vontade exclusiva de um pai ou de uma mãe, no limite, são resultado de um acordo financeiro. São quase como uma encomenda, em que até se escolhem as características do outro progenitor.

Credo! Tanta frieza! O que preferias? Ser uma criança concebida pelos meios naturais e depois adotada com um possível sentimento de que foste rejeitada pelos teus pais biológicos ou seres uma criança sem mãe ou sem pai, mas que é fruto de um desejo imenso de alguém que pensou em tudo e que te proporciona tudo?

Não gosto nada da forma como colocaste as coisas!! Nada mesmo! Não gosto sobretudo dessa ideia de que as crianças adotadas sentem que foram rejeitadas, até porque defendo a teoria de que, por vezes, dar um filho para adoção é que é um verdadeiro ato de Amor, por muito lirismo que possa estar aqui implícito. E não faz qualquer sentido responder à tua questão! Quero apenas continuar a pensar na felicidade que vejo em todas as crianças adotadas que conheço. Na verdade, quando estou com elas nem me lembro de que barriga vieram! São filhas de quem as ama.

Vês? Interessa alguma coisa saber de onde vens? Interessa é quem te dá colo porque te desejou! Cada vez mais, as nossas vidas deixaram de ser homem e mulher igual a ponto de partida para família feliz. Essa é apenas uma das fórmulas possíveis. Há tantas outras formas de família feliz… Com mais Ciência ou com menos Ciência. Com mais Moralismos ou com menos Moralismos.

Tens razão! Às vezes parece que queremos resistir ao simples: que cada um procure a sua Felicidade e que cada um dos restantes se dedique à sua própria Felicidade. Que sejam felizes os miúdos do Ronaldo!

Já agora, que se comece a pensar que, sendo estas situações só possíveis no estrangeiro, se calhar importa fazer um debate público sobre estas novas formas de conceber crianças para construir famílias não convencionais. Ter que ir ali ao lado a um banco de esperma ou ter que passar o Atlântico para alugar uma barriga dá a impressão de que ter um filho é uma coisa que se faz às escondidas, como se fosse um crime. E não é! Longe disso…

TAGSCRÓNICAHÁLIA SANTOS

Fonte:MEDIOTEJO




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