“Luta contra os fogos: uma tarefa para todo o ano”, por Teresa Cardoso

A menos de um mês do início da fase Charlie do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) é tempo para refletirmos sobre alguns aspetos relacionados com os fogos florestais.

As cinco fases do DECIF correspondem a diferentes níveis de empenhamento dos vários recursos operacionais, humanos e materiais, de combate a incêndios, em função dos diferentes graus de gravidade e probabilidade de incêndios florestais.

A fase Charlie que decorre e 1 de julho a 30 de setembro é, assim, aquela considerada mais crítica e a que envolve maior número de meios operacionais, incluindo equipas de bombeiros, meios aéreos e terrestres, equipas especializadas da Guarda Nacional Republicana, equipas de sapadores florestais, força especial de bombeiros (FEB) e equipas da Afocelca (Agrupamento de empresas do sector papeleiro).

O DEFIC contempla as vertentes de prevenção e vigilância e combate, contudo o esforço financeiro alocado a uma e a outra tem sido ao longo dos anos díspar.

Em 2015, os custos relativos a vigilância e combate cifraram-se em 70.5 milhões de euros contra os 25 milhões de euros gastos em prevenção estrutural. Esta relação de valores tem sido sensivelmente constante nos últimos anos, correspondendo os gastos com prevenção a cerca de ¼ dos custos totais do dispositivo.

Porém, esta tónica no maior investimento em combate não se reflecte em menores áreas ardidas. De facto, O maior ênfase colocado no combate aos incêndios em detrimento da prevenção tem efeitos negativos a médio e longo prazo. Isto porque se a curto prazo se dá resposta à resolução do problema, a médio e longo prazo verificar-se-á a acumulação de vegetação nas áreas de matos e florestas que depois constituirá o combustível que alimenta fogos de maior intensidade e com maiores taxas de propagação, o que, consequentemente, resultará em maiores áreas ardidas.

Existem várias razões para esta reiterada opção por investir mais em combate: os trabalhos de prevenção não têm visibilidade pública, não é costume vermos aberturas de noticiários com equipas de sapadores florestais a executar serviços de limpeza florestal. Além disso não é um trabalho que seja valorizado socialmente. Por outro lado é um trabalho que deve ser feito ao longo de todo o ano, não se concentrando só na época mais crítica para os fogos, e deve ser executado de forma contínua.

Mas, perante as pressões sobre os decisores políticos, especialmente em anos difíceis, com grandes áreas ardidas, a opção acaba por recair sobre as medidas mais mediáticas e com resultados a curto prazo, reforçando-se assim o investimento na vertente do combate e desvalorizando-se a prevenção.

Um estudo científico* publicado no Journal of Environmental Management, sobre este tema veio exactamente comprovar que a concentração de gastos no combate aos fogos com prejuízo do investimento em prevenção tem efeitos nefastos a longo prazo, tornando-se mais comuns anos com maior área ardida.

Por outro lado, com o aumento das áreas ardidas e a consequente pressão social, a resposta é, como vimos, investir ainda mais em combate. Tal situação cria um ciclo vicioso do qual a saída é difícil.

Claro que isto não significa que não se invista em combate, mas sim que o nível de investimento no combate e na prevenção deverá ser mais equilibrado. Uma política de execução de acções de prevenção realizadas durante todo o ano e concertadas entre todos os agentes envolvidos na luta contra o fogo, contribuiria para a diminuição da carga de combustível nas áreas florestais, o que, consequentemente, resultaria em fogos menos intensos e com menores taxas de propagação e naturalmente em menores custos das acções de combate.

Ou seja, equilibrar a resposta de longo prazo e a resposta rápida, investindo mais em prevenção (silvicultura preventiva) permitiria uma diminuição global dos custos financeiros associados aos fogos florestais e, mais importante, uma redução das perdas materiais e humanas.
Fonte: Médio Tejo




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